domingo, abril 29, 2007

Happy Birthday Liam

Ontem foi aniversário da pessoa mais importante da minha vida: o Liam! Ele completou 7 anos num lindo dia de primavera. Aproveitamos os dias maravilhosos que têm feito por aqui para comemorar ao ar livre, num parque perto da casa do pai dele (que mora no mesmo bairro que eu aqui em Amsterdam). A festa até que começou na casa do pai, mas com 8 meninos bagunceiros correndo pra lá e pra cá, logo fomos pro parque brincar...

A foto aqui do lado foi tirada exatamente há 1 ano por um grande amigo em Paris (Liam comemorou seus 6 anos na Torre Eiffel!). Escolhi essa foto porque ela retrata muito bem o temperamento sapeca do Liam: um menino alegre, falante (pra não dizer tagarela) e cheio de caras e bocas! O aniversário pode até ser dele - mas o maior presente quem ganhou neste dia fui eu!

sábado, abril 28, 2007

Coisas de Holanda

Ando pensando, lendo jornais, e pensando mais um pouco. E cheguei à conclusão que no dia em que começar a escrever sobre o que realmente acontece aqui na Holanda, não vou parar de escrever nunca mais! Ou vou escrever tanto, mas tanto, que vou acabar criando outro blog: Coisas de Holanda (não deixa de ser uma idéia). É que vivo em um país de contradições cada vez maiores e cuja imagem lá fora pouco ou nada corresponde à realidade daqueles que vivem aqui. Inevitavelmente, têm dias em que eu acordo e penso: hora de desmistificar o país - depois de 13 anos morando aqui, a gente adquire um pouco este direito.

Pra começar, queria deixar bem claro que a Holanda não é o paraíso (embora também não seja o pior lugar do mundo pra se viver). E se alguém por aí tiver descoberto onde o paraíso fica, favor me avisar!!! Moro na Holanda há 13 anos mas já morei nos EUA, Irlanda, Escócia, fui casada com inglês e carrego em mim um pouco de 3 culturas: a brasileira, a inglesa (tempos atrás uma amiga até me apelidou de Dona Inglesa, rsrsrs) e a holandesa. Nem mais, nem menos. Uma posição de certa forma privilegiada, porque tenho o distanciamento necessário para ver os problemas do Brasil (por não estar mais inserida naquela luta diária). E ao mesmo tempo uma posição bastante delicada, porque sempre continuarei sendo estrangeira...aqui sou a brasileira e na minha última visita ao Brasil há 8 anos - nem ouso imaginar como seria agora - meus amigos disseram que eu estava virando européia (e com certeza virei mesmo, em alguns aspectos). Em suma, quem mora fora sabe muito bem do que estou falando.

Só sei dizer que desde que moro na Holanda as coisas mudaram...e muito. E com as mudanças, foram-se grande parte das ilusões que eu tinha quando cheguei por aqui. Claro que não vou cometer o erro de querer comparar os problemas daqui com os do Brasil - teria de ser muito tola (ou burra) para isso! Mas bem ou mal, não deixam de ser problemas, e eles estão cada vez mais fora de controle dos líderes governamentais. Tanto na Holanda, como em países vizinhos como Alemanha e França. E você não precisa ser muito inteligente pra ver que um dia a bomba explode...não, não estou falando do terrorismo (assunto número 1 nos EUA) e sim do maior problema que a Comunidade Européia é obrigada a enfrentar todos os dias em suas cidades. Estou falando da questão da imigração, que já rendeu (e ainda irá render) inúmeros livros, teses e filmes (entre eles, Babel).

Um assunto complexo mas, por mais irônico que possa parecer, quem começou essa estória foram os próprios europeus, que não pensaram duas vezes ao importar mão-de-obra barata (e analfabeta) da Turquia e do Marrocos nos anos 60 e 70. Esses imigrantes (chamados de gastarbeiders aqui na Holanda) foram fundamentais na reconstrução dos países após a Segunda Guerra Mundial e mais tarde, na indústria pesada. Mas a idéia original (santa ingenuidade) do governo holandês (francês, alemão) era que retornassem a seus países para continuar vivendo suas vidas miseráveis...Lêdo engano: três gerações e mais de 40 anos depois, a Europa ainda está lidando com as consequências dessa escolha. A cada dia, em cada centro urbano.

Uma das consequências imediatas é o aumento da xenofobia (principalmente depois de 9-11, needless to say). A Holanda, que era um dos países com leis de imigração mais liberais na Europa hoje tem algumas das legislações mais rígidas. E um partido de extrema-direita que não fica devendo nada a partidos como o Front Nationale (França) e o Vlaams Belang, antigo Vlaams Blok (Bélgica). Um dos primores dessa nova legislação é que, quem quiser vir morar aqui deverá antes passar em um exame da língua holandesa no seu país de origem. Ou seja, nada de chegar aqui sem falar holandês (e olha que a língua não é das mais fáceis).

Mas o ser humano é assim e no final das contas, alguém tem de levar a culpa pelos problemas socioeconômicos do país. E a história mostrou várias vezes (basta lembrar do Holocausto) que o bode expiatório sempre foi e continuará sendo o mais fraco - neste caso, os imigrantes em particular e os estrangeiros em geral. Mas eu continuo o assunto em outro post porque só de pensar fiquei cansada! Aguardem cenas dos próximos capítulos...

quinta-feira, abril 26, 2007

Que mais há a dizer?



Dizes-me: tu és mais alguma coisa
Que uma pedra ou uma planta.
Dizes-me: sentes, pensas e sabes
Que pensas e sentes.
Então as pedras escrevem versos?
Então as plantas têm ideias sobre o mundo?

Sim: há diferença.
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as coisas:
Só me obriga a ser consciente.

Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei.
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.

Ter consciência é mais que ter cor?
Pode ser e pode não ser.
Sei que é diferente apenas.
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.

Sei que a pedra é a real, e que a planta existe.
Sei isto porque elas existem.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.
Sei que sou real também.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram,
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.
Não sei mais nada.

Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.
Sim, faço ideias sobre o mundo, e a planta nenhumas.
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;
E as plantas são plantas só, e não pensadores.
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,
Como que sou inferior.
Mas não digo isso: digo da pedra, «é uma pedra»,
Digo da planta, «é uma planta»,
Digo de mim «sou eu».
E não digo mais nada. Que mais há a dizer?
(Alberto Caeiro)

PS. Vista de Buttermere, Lake District...amo este lugar de paixão!

segunda-feira, abril 23, 2007

Mais bicharada!

Sei que isso aqui está ficando meio repetitivo, mas não tenho culpa se tenho em casa um menino de 6 anos fissurado em bichos! Sábado fomos eu e Liam pela primeira vez ao Dierenpark Amersfoort, um zoológico muito bacana a cerca de 45 minutos de trem de Amsterdam. O parque é maior do que eu imaginava e com animais que não estamos acostumados a ver aqui no Artis, como os ursos e as (antipáticas) hienas. Muitos espaços abertos e cercado por bosques, áreas de recreação enormes e até uma área devotada à Antiguidade (com direito a ruínas e arena romana). E um trenzinho irresistível que faz a alegria da garotada em um tour de 5 minutos por uma parte do parque...Liam foi duas vezes e ainda queria ir de novo (como se não bastasse ter ido e voltado de trem, hehehe).

Liam amou o passeio e já estamos planejando voltar lá em junho para a abertura do Dinobos (Bosque dos Dinossauros). O bosque terá mais de 40 réplicas enormes e promete levar o público de volta à Era Jurássica, para delírio da criançada - delírio mesmo, acreditem! Quanto a mim, confesso que um passeio como estes num lindo dia de primavera - temperaturas de acordo com a estação, cerca de 18 graus e muito sol - melhora o humor de qualquer um.

Pena que um programa deste tipo costuma custar caro...mas que vale a pena, isso vale! O jeito é economizar, né? Até porque, estou planejando uma visita ao Dolfinarium, que sonho conhecer desde antes de ter tido meu filho...Uma das atrações mais caras da Holanda, mas como EU sou apaixonada por golfinhos vou dar um jeito de visitá-los (ainda) neste verão. E como filho de peixe peixinho é, Liam também gosta de golfinhos - embora a grande paixão dele sejam as baleias e os tubarões!

quarta-feira, abril 18, 2007

Columbine, mais uma vez...

Mais uma vez, os EUA foram ontem manchete dos principais jornais em todo o mundo. Foi o maior massacre ocorrido dentro de uma instituição de ensino americana, com o total de mortos chegando a 33, entre estudantes e professores (incluindo o rapaz que atirou várias vezes e depois se matou). Até o momento, pouco se sabe sobre os motivos do rapaz de origem asiática (Coréia do Sul) que havia se mudado para os EUA com 8 anos de idade. Tinha 23 anos e cursava Inglês na faculdade, um rapaz calado e reservado, de quem pouco se sabia...Não obstante, alguns professores de redação já haviam comentado sobre os textos nebulosos do estudante e haviam até mesmo aconselhado atendimento psicológico. Atendimento psicológico ou não, um dia o rapaz compra uma arma de fogo - nos EUA existem mais lojas vendendo armas do que postos de gasolina - e sabe-se lá porque cargas d´água, decide sair atirando no campus de uma universidade - desta vez a Virginia Tech, no estado de Washington.

O que inevitavelmente nos remete a filmes recentes como Bowling for Columbine (Michael Moore, 2002) e Elephant (Gus van Sant, 2003). Pensando bem, em um país que não apenas autoriza como incentiva a posse de armas - e consequentemente a justiça pelas próprias mãos - não chega a surpreender quando o feitiço vira contra o feiticeiro. Aconteceu uma vez, duas vezes e ontem mais uma vez. Como bem disse uma amiga no blog dela: pára o mundo que eu quero descer!

Bicharada

Dessa vez vou falar dos filmes do meu filho. Como filho de cinéfila que é, do alto de seus quase 7 anos Liam já assistiu uma quantidade razoável de filmes infantis. E eu aproveitei pra rever alguns favoritos da minha infância, a começar pelos Clássicos da Disney - parada obrigatória ao apresentar uma criança ao mundo do cinema (o guri sabia o nome de todos os personagens quando fomos ano passado à Disneyland). Juntos assistimos também praticamente todos os filmes da Pixar como Monster and Co., Toy Story 1 e 2, Finding Nemo e o mais recente e favorito, Cars. Outros que fizeram um sucesso estrondoso aqui em casa foram Madagascar, Over the Edge e Ice Age 1 e 2 - filmes que, diga-se de passagem, são diversão garantida para crianças e adultos. No cinema ainda: Brother Bear, Chicken Little, The Wild, Flushed Away, Happy Feet e seus adoráveis pinguins dançantes.

E isso que nem falei dos filmes de aventura que assistimos repetidas vezes em casa, como Beethoven (o cão São Bernardo mais família que já apareceu nas telas do cinema), The Incredible Journey (com dois cachorros e a gata Sissi) e Free Willy (Liam ama baleias e desnecessário dizer, adora este filme). E só não assistimos Lassie porque eu não deixei: chorava aos baldes quando criança ao assistir as aventuras e desventuras da pobre cadelinha...Haja coração!

Em suma: é bicharada que não acaba mais! O que não chega a surpreender se juntarmos minha paixão pelo cinema e a paixão do menino pelos bichos! Mas fala sério...tem coisa melhor do que um bom filme infantil? Só mesmo um bom filme infantil com um balde de pipoca caseira, feita na hora!

PS. As mamães do Brasil me desculpem mas não tenho a menor idéia de como traduziram os títulos destes filmes por aí...Juro que não é esnobismo, é ignorância mesmo!

segunda-feira, abril 16, 2007

Lucidez perigosa

Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.

Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.

por Clarice Lispector
Tecnologia do Blogger.

Happy Birthday Liam

Ontem foi aniversário da pessoa mais importante da minha vida: o Liam! Ele completou 7 anos num lindo dia de primavera. Aproveitamos os dias maravilhosos que têm feito por aqui para comemorar ao ar livre, num parque perto da casa do pai dele (que mora no mesmo bairro que eu aqui em Amsterdam). A festa até que começou na casa do pai, mas com 8 meninos bagunceiros correndo pra lá e pra cá, logo fomos pro parque brincar...

A foto aqui do lado foi tirada exatamente há 1 ano por um grande amigo em Paris (Liam comemorou seus 6 anos na Torre Eiffel!). Escolhi essa foto porque ela retrata muito bem o temperamento sapeca do Liam: um menino alegre, falante (pra não dizer tagarela) e cheio de caras e bocas! O aniversário pode até ser dele - mas o maior presente quem ganhou neste dia fui eu!

Coisas de Holanda

Ando pensando, lendo jornais, e pensando mais um pouco. E cheguei à conclusão que no dia em que começar a escrever sobre o que realmente acontece aqui na Holanda, não vou parar de escrever nunca mais! Ou vou escrever tanto, mas tanto, que vou acabar criando outro blog: Coisas de Holanda (não deixa de ser uma idéia). É que vivo em um país de contradições cada vez maiores e cuja imagem lá fora pouco ou nada corresponde à realidade daqueles que vivem aqui. Inevitavelmente, têm dias em que eu acordo e penso: hora de desmistificar o país - depois de 13 anos morando aqui, a gente adquire um pouco este direito.

Pra começar, queria deixar bem claro que a Holanda não é o paraíso (embora também não seja o pior lugar do mundo pra se viver). E se alguém por aí tiver descoberto onde o paraíso fica, favor me avisar!!! Moro na Holanda há 13 anos mas já morei nos EUA, Irlanda, Escócia, fui casada com inglês e carrego em mim um pouco de 3 culturas: a brasileira, a inglesa (tempos atrás uma amiga até me apelidou de Dona Inglesa, rsrsrs) e a holandesa. Nem mais, nem menos. Uma posição de certa forma privilegiada, porque tenho o distanciamento necessário para ver os problemas do Brasil (por não estar mais inserida naquela luta diária). E ao mesmo tempo uma posição bastante delicada, porque sempre continuarei sendo estrangeira...aqui sou a brasileira e na minha última visita ao Brasil há 8 anos - nem ouso imaginar como seria agora - meus amigos disseram que eu estava virando européia (e com certeza virei mesmo, em alguns aspectos). Em suma, quem mora fora sabe muito bem do que estou falando.

Só sei dizer que desde que moro na Holanda as coisas mudaram...e muito. E com as mudanças, foram-se grande parte das ilusões que eu tinha quando cheguei por aqui. Claro que não vou cometer o erro de querer comparar os problemas daqui com os do Brasil - teria de ser muito tola (ou burra) para isso! Mas bem ou mal, não deixam de ser problemas, e eles estão cada vez mais fora de controle dos líderes governamentais. Tanto na Holanda, como em países vizinhos como Alemanha e França. E você não precisa ser muito inteligente pra ver que um dia a bomba explode...não, não estou falando do terrorismo (assunto número 1 nos EUA) e sim do maior problema que a Comunidade Européia é obrigada a enfrentar todos os dias em suas cidades. Estou falando da questão da imigração, que já rendeu (e ainda irá render) inúmeros livros, teses e filmes (entre eles, Babel).

Um assunto complexo mas, por mais irônico que possa parecer, quem começou essa estória foram os próprios europeus, que não pensaram duas vezes ao importar mão-de-obra barata (e analfabeta) da Turquia e do Marrocos nos anos 60 e 70. Esses imigrantes (chamados de gastarbeiders aqui na Holanda) foram fundamentais na reconstrução dos países após a Segunda Guerra Mundial e mais tarde, na indústria pesada. Mas a idéia original (santa ingenuidade) do governo holandês (francês, alemão) era que retornassem a seus países para continuar vivendo suas vidas miseráveis...Lêdo engano: três gerações e mais de 40 anos depois, a Europa ainda está lidando com as consequências dessa escolha. A cada dia, em cada centro urbano.

Uma das consequências imediatas é o aumento da xenofobia (principalmente depois de 9-11, needless to say). A Holanda, que era um dos países com leis de imigração mais liberais na Europa hoje tem algumas das legislações mais rígidas. E um partido de extrema-direita que não fica devendo nada a partidos como o Front Nationale (França) e o Vlaams Belang, antigo Vlaams Blok (Bélgica). Um dos primores dessa nova legislação é que, quem quiser vir morar aqui deverá antes passar em um exame da língua holandesa no seu país de origem. Ou seja, nada de chegar aqui sem falar holandês (e olha que a língua não é das mais fáceis).

Mas o ser humano é assim e no final das contas, alguém tem de levar a culpa pelos problemas socioeconômicos do país. E a história mostrou várias vezes (basta lembrar do Holocausto) que o bode expiatório sempre foi e continuará sendo o mais fraco - neste caso, os imigrantes em particular e os estrangeiros em geral. Mas eu continuo o assunto em outro post porque só de pensar fiquei cansada! Aguardem cenas dos próximos capítulos...

Que mais há a dizer?



Dizes-me: tu és mais alguma coisa
Que uma pedra ou uma planta.
Dizes-me: sentes, pensas e sabes
Que pensas e sentes.
Então as pedras escrevem versos?
Então as plantas têm ideias sobre o mundo?

Sim: há diferença.
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as coisas:
Só me obriga a ser consciente.

Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei.
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.

Ter consciência é mais que ter cor?
Pode ser e pode não ser.
Sei que é diferente apenas.
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.

Sei que a pedra é a real, e que a planta existe.
Sei isto porque elas existem.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.
Sei que sou real também.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram,
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.
Não sei mais nada.

Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.
Sim, faço ideias sobre o mundo, e a planta nenhumas.
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;
E as plantas são plantas só, e não pensadores.
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,
Como que sou inferior.
Mas não digo isso: digo da pedra, «é uma pedra»,
Digo da planta, «é uma planta»,
Digo de mim «sou eu».
E não digo mais nada. Que mais há a dizer?
(Alberto Caeiro)

PS. Vista de Buttermere, Lake District...amo este lugar de paixão!

Mais bicharada!

Sei que isso aqui está ficando meio repetitivo, mas não tenho culpa se tenho em casa um menino de 6 anos fissurado em bichos! Sábado fomos eu e Liam pela primeira vez ao Dierenpark Amersfoort, um zoológico muito bacana a cerca de 45 minutos de trem de Amsterdam. O parque é maior do que eu imaginava e com animais que não estamos acostumados a ver aqui no Artis, como os ursos e as (antipáticas) hienas. Muitos espaços abertos e cercado por bosques, áreas de recreação enormes e até uma área devotada à Antiguidade (com direito a ruínas e arena romana). E um trenzinho irresistível que faz a alegria da garotada em um tour de 5 minutos por uma parte do parque...Liam foi duas vezes e ainda queria ir de novo (como se não bastasse ter ido e voltado de trem, hehehe).

Liam amou o passeio e já estamos planejando voltar lá em junho para a abertura do Dinobos (Bosque dos Dinossauros). O bosque terá mais de 40 réplicas enormes e promete levar o público de volta à Era Jurássica, para delírio da criançada - delírio mesmo, acreditem! Quanto a mim, confesso que um passeio como estes num lindo dia de primavera - temperaturas de acordo com a estação, cerca de 18 graus e muito sol - melhora o humor de qualquer um.

Pena que um programa deste tipo costuma custar caro...mas que vale a pena, isso vale! O jeito é economizar, né? Até porque, estou planejando uma visita ao Dolfinarium, que sonho conhecer desde antes de ter tido meu filho...Uma das atrações mais caras da Holanda, mas como EU sou apaixonada por golfinhos vou dar um jeito de visitá-los (ainda) neste verão. E como filho de peixe peixinho é, Liam também gosta de golfinhos - embora a grande paixão dele sejam as baleias e os tubarões!

Columbine, mais uma vez...

Mais uma vez, os EUA foram ontem manchete dos principais jornais em todo o mundo. Foi o maior massacre ocorrido dentro de uma instituição de ensino americana, com o total de mortos chegando a 33, entre estudantes e professores (incluindo o rapaz que atirou várias vezes e depois se matou). Até o momento, pouco se sabe sobre os motivos do rapaz de origem asiática (Coréia do Sul) que havia se mudado para os EUA com 8 anos de idade. Tinha 23 anos e cursava Inglês na faculdade, um rapaz calado e reservado, de quem pouco se sabia...Não obstante, alguns professores de redação já haviam comentado sobre os textos nebulosos do estudante e haviam até mesmo aconselhado atendimento psicológico. Atendimento psicológico ou não, um dia o rapaz compra uma arma de fogo - nos EUA existem mais lojas vendendo armas do que postos de gasolina - e sabe-se lá porque cargas d´água, decide sair atirando no campus de uma universidade - desta vez a Virginia Tech, no estado de Washington.

O que inevitavelmente nos remete a filmes recentes como Bowling for Columbine (Michael Moore, 2002) e Elephant (Gus van Sant, 2003). Pensando bem, em um país que não apenas autoriza como incentiva a posse de armas - e consequentemente a justiça pelas próprias mãos - não chega a surpreender quando o feitiço vira contra o feiticeiro. Aconteceu uma vez, duas vezes e ontem mais uma vez. Como bem disse uma amiga no blog dela: pára o mundo que eu quero descer!

Bicharada

Dessa vez vou falar dos filmes do meu filho. Como filho de cinéfila que é, do alto de seus quase 7 anos Liam já assistiu uma quantidade razoável de filmes infantis. E eu aproveitei pra rever alguns favoritos da minha infância, a começar pelos Clássicos da Disney - parada obrigatória ao apresentar uma criança ao mundo do cinema (o guri sabia o nome de todos os personagens quando fomos ano passado à Disneyland). Juntos assistimos também praticamente todos os filmes da Pixar como Monster and Co., Toy Story 1 e 2, Finding Nemo e o mais recente e favorito, Cars. Outros que fizeram um sucesso estrondoso aqui em casa foram Madagascar, Over the Edge e Ice Age 1 e 2 - filmes que, diga-se de passagem, são diversão garantida para crianças e adultos. No cinema ainda: Brother Bear, Chicken Little, The Wild, Flushed Away, Happy Feet e seus adoráveis pinguins dançantes.

E isso que nem falei dos filmes de aventura que assistimos repetidas vezes em casa, como Beethoven (o cão São Bernardo mais família que já apareceu nas telas do cinema), The Incredible Journey (com dois cachorros e a gata Sissi) e Free Willy (Liam ama baleias e desnecessário dizer, adora este filme). E só não assistimos Lassie porque eu não deixei: chorava aos baldes quando criança ao assistir as aventuras e desventuras da pobre cadelinha...Haja coração!

Em suma: é bicharada que não acaba mais! O que não chega a surpreender se juntarmos minha paixão pelo cinema e a paixão do menino pelos bichos! Mas fala sério...tem coisa melhor do que um bom filme infantil? Só mesmo um bom filme infantil com um balde de pipoca caseira, feita na hora!

PS. As mamães do Brasil me desculpem mas não tenho a menor idéia de como traduziram os títulos destes filmes por aí...Juro que não é esnobismo, é ignorância mesmo!

Lucidez perigosa

Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.

Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.

por Clarice Lispector