quinta-feira, novembro 08, 2012

O Fim do Império Branco

 
 


Nesses dias esquisitos, ao menos posso dizer que fiquei feliz com a vitória do Obama. Diga-se de passagem, uma vitória dupla: ser reeleito em plena crise americana, com altos índices de desemprego e uma economia estagnada. Isso significa que alguma coisa ele está fazendo certo. E ao menos assim, ele poderá dar continuidade aos seus planos. E continuidade é essencial nestes tempos difíceis.

No mais, o Império Branco dos republicanos vem sendo cada vez mais ameaçado pelas minorias. É que o eleitor típico de Romney é o americano branco de classe média, residente nas zonas rurais (o velho cowboy). Já o eleitorado de Obama abrange várias classes sociais e comunidades de imigrantes. E neste ponto ele acertou em cheio. Enfim, é o fim do Império Branco.

Interessante observar as eleições americanas daqui da Europa, onde os "problemas" de imigração são bastante semelhantes aos dos EUA mas as soluções tem sido diferentes até os dias de hoje. Aqui na Holanda, por exemplo, nunca se elegeu um presidente negro (ponto para os EUA). Também existem pouquíssimos negros (ou latinos, asiáticos) em universidades e em cargos de chefia em grandes empresas. Até mesmo em hospitais, a maioria dos médicos é branca. E isso não sou eu que digo, está nos jornais pra quem quiser ler. A discriminação já começa no ensino primário (já comentei sobre isso por aqui) e vai até o mercado de trabalho. No meu bairro existe uma escola branca (onde os pais holandeses matriculam suas crianças e a fila de espera é de dois anos). Todas as outras escolas são negras (80% filhos de imigrantes ou mais). E pra você que nunca ouviu falar em escola branca e escola negra, estes são termos correntes na mídia holandesa. Sentiram o drama? Detalhe que este é um problema também na França, Alemanha e Inglaterra...não apenas um problema holandês.

E é justamente isso que eu admiro no Obama. Ele entende esta mudança social - até porque, faz parte dela - que começou há uns 50 anos e agora se vê pelas ruas das cidades americanas e européias. Aqui mesmo em Amsterdam, quase metade da população jovem é filha de imigrantes (nascida aqui e muitos com passaporte holandês). E qualquer candidato que queira arrecadar votos nas capitais holandesas, precisa levar isso em consideração na hora de preparar sua campanha.

Eu nem vou falar de EUA porque não moro lá. Mas aqui na Holanda a coisa está pegando fogo. Os holandeses não querem conviver com culturas diferentes da sua (e não me refiro apenas a muçulmanos) mas infelizmente para eles, isso é inevitável. A verdade é que eles continuam achando sua cultura superior e não querem saber de assimilar novos valores culturais (alguns até tentam, poucos conseguem). Quanto a mim, prefiro acreditar que há algo de bom em toda cultura. E crio meu filho para respeitar as diferentes culturas porque no final das contas, ninguém é melhor do que ninguém. Eu aproveito o que acho bom da cultura holandesa, tiro algo da cultura inglesa, misturo um pouco da brasileira e assim vamos vivendo, tentando tirar o melhor de dois (ou mais) mundos!

Os imigrantes estão deixando de ser minoria para ser maioria. E isso não é ruim. A sociedade moderna é cada vez mais multicultural e não adianta bater pé (como os republicanos que queriam deportar os ilegais) e exigir uma sociedade branca porque esta era passou! Eu vejo ao meu redor holandeses reclamando, saudosos dos tempos em que não se via lojas turcas e mesquitas por toda parte. Mas esta é a nova paisagem social e eles terão de se acostumar com isso mais cedo ou mais tarde. Eu já me acostumei há tempos e nem acredito que me adaptasse em um bairro branco onde a maioria dos moradores fosse holandeses...meu filho menos ainda.

Enfim, este é o grande desafio do futuro. O fim de um império.


6 comentários:

Georgia Aegerter disse...

Beth, esse problema cultural nao é fácil de se resolver tem tanta coisa embargada pelo caminho.

E nós que expulsamos os próprios indios de suas casas?
Somos diferentes? Somos melhores?
Nao sei, há um politicagem em redor de tantas coisas e por isso o mundo leva muito tempo para crescer.

Mesmo Obama tendo ganho, a diferenca nao foi tanta assim. isso significa que os Republicanos têm ainda muito poder no Congresso, onde eles nao deixam passar nada que Obama pretende fazer. É ai o grande perigo no governo do Obama.

Espero que ele nao perca as esperancas pelo caminho e que consigo no final um bom e positivo saldo.

Bom fim de semana

Bjao

Georgia Aegerter disse...

Bom dia Beth,

li teu texto abaixo...espero quevc esteja melhor.

A vida para estes lados nao é fácil. É uma luta constante, é remar contra a maré. As vezes os bracos ficam cansados, as pernas pesam mais...mas sabe vai passar. Vc nao pode perder a confianca em vc e no teu tato. Deixa ele fluir mesmo que vc nao veja ainda a luz no final do túnel.


Te desejo um fim de semana abencoado. Creia, algo bom vai acontecer...

Lucian Souza disse...

Oi Beth! eu leio o seu blog e acho que já comentei nele. E adoro discutir o seu texto com um amigo holandes, quase sempre ele concorda com vc! E como eu gosto do seus texto agora eu queria a sua opinião e esse artigo fala de política me levou a pensar... Já li vários artigos na internet imaginando o que teria acontecido se os holandeses derrotado os portugueses tivessem permanecidos no Brasil e geralmente esses artigos mostram que foi 'lucro' para nós os português terem expulsado os holandeses e citam como referencia o Suriname e a Africa do sul. Há os entusiastas usam as bem feitorias de Nassau para mostrar que estariamos melhor. Como você imagina um brasil colonizado por holandeses?

Eliana disse...

Pois é...acho que tudo está passando por um reviravolta. Não sigo à risca sobre o Obama mas penso que ele recebeu um reconhecimento merecido com a reeleição, ou seja, agora ele não tem mais nada a perder e pode pisar fundo em seus anseios...mas é como foi dito acima...o caminho é longo e cheio de percalços, porém, fica a prova de que a mudança sempre acontece.

Palavras Vagabundas disse...

Beth,
O império foi branco, mas branco nunca foi maioria no mundo, a Ásia está aí para provar. Não sei se é o fim, mas gosto do Obama na Casa Branca, além dele parecer sinceramente feliz com sua família.
Não conheço com profundidade o problema europeu, mas me arrepia só de ler "escola branca e escola negra", é o primeiro passo para xonofobia.
Boa sorte e força! (li o post anterior)
bjs
Jussara

Milena F. disse...

Concordei com muitos aspectos do seu texto! Quando cheguei aqui há 4 anos não vi "tanto" preconceito contra estrangeiros, mas agora, tenho a impressão que a cada dia a tensão aumenta! Principalmente para com os imigrantes (ou naturalizados) muçulmanos e africamos, em relação aos outros imigrantes (meu caso), ainda não é tão forte nem tão direto.

Sobre as escolas, já comentei muitas vezes que tb vejo muito isso, mas tb já comentei que meu marido leciona em escolas parisienses (não de periferia), onde tem de tudo! Infelimente ontem ele foi a Cité des Sciences com duas classes (e vários professores, ele não foi o único) e ele me disse que ficou muito chateado com o comportamento de algumas crianças que fizeram a maior bagunça, e justamente as crianças que causam problemas são 4 ou 5 oriendas dessa imigração. Ele diz que na escola todos são estimulados da mesma forma, essa escola é de excelente qualidade, e essas crianças não aproveitam! E na volta, os demais alunos no metrô lendo bem comportadinhos o material fornecido pela exposição (que era voltado às crianças) e esse grupinho correndo, se batendo e subindo pelos bancos, os professores correndo atrás. Sinceramente não sei o que se deve fazer, mas sinceramente não quero que essa sociedade se transforme em uma sociedade sem respeito, agressiva e machista ao extremo, que é o que vemos em algumas periferias. Aqui os estrangeiros não têm direito de voto, mas existe um movimento muito grande de parte de alguns grupos de estrangeiros para que seja proibido comer ou comercializar alimentos durante o ramadam, querem autorizar o lenço na cabeça nas escolas, horários separados para homens e mulheres nas piscinas, etc. Então sinceramente tenho medo que um dia, em uma periferia sensível as mulheres tenham que viver como em algum país em que o que reina são as leis religiosas. Não quero um dia ser obrigada a sair de casa com o rosto, mãos e corpo inteiro cobertos!

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O Fim do Império Branco

 
 


Nesses dias esquisitos, ao menos posso dizer que fiquei feliz com a vitória do Obama. Diga-se de passagem, uma vitória dupla: ser reeleito em plena crise americana, com altos índices de desemprego e uma economia estagnada. Isso significa que alguma coisa ele está fazendo certo. E ao menos assim, ele poderá dar continuidade aos seus planos. E continuidade é essencial nestes tempos difíceis.

No mais, o Império Branco dos republicanos vem sendo cada vez mais ameaçado pelas minorias. É que o eleitor típico de Romney é o americano branco de classe média, residente nas zonas rurais (o velho cowboy). Já o eleitorado de Obama abrange várias classes sociais e comunidades de imigrantes. E neste ponto ele acertou em cheio. Enfim, é o fim do Império Branco.

Interessante observar as eleições americanas daqui da Europa, onde os "problemas" de imigração são bastante semelhantes aos dos EUA mas as soluções tem sido diferentes até os dias de hoje. Aqui na Holanda, por exemplo, nunca se elegeu um presidente negro (ponto para os EUA). Também existem pouquíssimos negros (ou latinos, asiáticos) em universidades e em cargos de chefia em grandes empresas. Até mesmo em hospitais, a maioria dos médicos é branca. E isso não sou eu que digo, está nos jornais pra quem quiser ler. A discriminação já começa no ensino primário (já comentei sobre isso por aqui) e vai até o mercado de trabalho. No meu bairro existe uma escola branca (onde os pais holandeses matriculam suas crianças e a fila de espera é de dois anos). Todas as outras escolas são negras (80% filhos de imigrantes ou mais). E pra você que nunca ouviu falar em escola branca e escola negra, estes são termos correntes na mídia holandesa. Sentiram o drama? Detalhe que este é um problema também na França, Alemanha e Inglaterra...não apenas um problema holandês.

E é justamente isso que eu admiro no Obama. Ele entende esta mudança social - até porque, faz parte dela - que começou há uns 50 anos e agora se vê pelas ruas das cidades americanas e européias. Aqui mesmo em Amsterdam, quase metade da população jovem é filha de imigrantes (nascida aqui e muitos com passaporte holandês). E qualquer candidato que queira arrecadar votos nas capitais holandesas, precisa levar isso em consideração na hora de preparar sua campanha.

Eu nem vou falar de EUA porque não moro lá. Mas aqui na Holanda a coisa está pegando fogo. Os holandeses não querem conviver com culturas diferentes da sua (e não me refiro apenas a muçulmanos) mas infelizmente para eles, isso é inevitável. A verdade é que eles continuam achando sua cultura superior e não querem saber de assimilar novos valores culturais (alguns até tentam, poucos conseguem). Quanto a mim, prefiro acreditar que há algo de bom em toda cultura. E crio meu filho para respeitar as diferentes culturas porque no final das contas, ninguém é melhor do que ninguém. Eu aproveito o que acho bom da cultura holandesa, tiro algo da cultura inglesa, misturo um pouco da brasileira e assim vamos vivendo, tentando tirar o melhor de dois (ou mais) mundos!

Os imigrantes estão deixando de ser minoria para ser maioria. E isso não é ruim. A sociedade moderna é cada vez mais multicultural e não adianta bater pé (como os republicanos que queriam deportar os ilegais) e exigir uma sociedade branca porque esta era passou! Eu vejo ao meu redor holandeses reclamando, saudosos dos tempos em que não se via lojas turcas e mesquitas por toda parte. Mas esta é a nova paisagem social e eles terão de se acostumar com isso mais cedo ou mais tarde. Eu já me acostumei há tempos e nem acredito que me adaptasse em um bairro branco onde a maioria dos moradores fosse holandeses...meu filho menos ainda.

Enfim, este é o grande desafio do futuro. O fim de um império.


6 comentários:

Georgia Aegerter disse...

Beth, esse problema cultural nao é fácil de se resolver tem tanta coisa embargada pelo caminho.

E nós que expulsamos os próprios indios de suas casas?
Somos diferentes? Somos melhores?
Nao sei, há um politicagem em redor de tantas coisas e por isso o mundo leva muito tempo para crescer.

Mesmo Obama tendo ganho, a diferenca nao foi tanta assim. isso significa que os Republicanos têm ainda muito poder no Congresso, onde eles nao deixam passar nada que Obama pretende fazer. É ai o grande perigo no governo do Obama.

Espero que ele nao perca as esperancas pelo caminho e que consigo no final um bom e positivo saldo.

Bom fim de semana

Bjao

Georgia Aegerter disse...

Bom dia Beth,

li teu texto abaixo...espero quevc esteja melhor.

A vida para estes lados nao é fácil. É uma luta constante, é remar contra a maré. As vezes os bracos ficam cansados, as pernas pesam mais...mas sabe vai passar. Vc nao pode perder a confianca em vc e no teu tato. Deixa ele fluir mesmo que vc nao veja ainda a luz no final do túnel.


Te desejo um fim de semana abencoado. Creia, algo bom vai acontecer...

Lucian Souza disse...

Oi Beth! eu leio o seu blog e acho que já comentei nele. E adoro discutir o seu texto com um amigo holandes, quase sempre ele concorda com vc! E como eu gosto do seus texto agora eu queria a sua opinião e esse artigo fala de política me levou a pensar... Já li vários artigos na internet imaginando o que teria acontecido se os holandeses derrotado os portugueses tivessem permanecidos no Brasil e geralmente esses artigos mostram que foi 'lucro' para nós os português terem expulsado os holandeses e citam como referencia o Suriname e a Africa do sul. Há os entusiastas usam as bem feitorias de Nassau para mostrar que estariamos melhor. Como você imagina um brasil colonizado por holandeses?

Eliana disse...

Pois é...acho que tudo está passando por um reviravolta. Não sigo à risca sobre o Obama mas penso que ele recebeu um reconhecimento merecido com a reeleição, ou seja, agora ele não tem mais nada a perder e pode pisar fundo em seus anseios...mas é como foi dito acima...o caminho é longo e cheio de percalços, porém, fica a prova de que a mudança sempre acontece.

Palavras Vagabundas disse...

Beth,
O império foi branco, mas branco nunca foi maioria no mundo, a Ásia está aí para provar. Não sei se é o fim, mas gosto do Obama na Casa Branca, além dele parecer sinceramente feliz com sua família.
Não conheço com profundidade o problema europeu, mas me arrepia só de ler "escola branca e escola negra", é o primeiro passo para xonofobia.
Boa sorte e força! (li o post anterior)
bjs
Jussara

Milena F. disse...

Concordei com muitos aspectos do seu texto! Quando cheguei aqui há 4 anos não vi "tanto" preconceito contra estrangeiros, mas agora, tenho a impressão que a cada dia a tensão aumenta! Principalmente para com os imigrantes (ou naturalizados) muçulmanos e africamos, em relação aos outros imigrantes (meu caso), ainda não é tão forte nem tão direto.

Sobre as escolas, já comentei muitas vezes que tb vejo muito isso, mas tb já comentei que meu marido leciona em escolas parisienses (não de periferia), onde tem de tudo! Infelimente ontem ele foi a Cité des Sciences com duas classes (e vários professores, ele não foi o único) e ele me disse que ficou muito chateado com o comportamento de algumas crianças que fizeram a maior bagunça, e justamente as crianças que causam problemas são 4 ou 5 oriendas dessa imigração. Ele diz que na escola todos são estimulados da mesma forma, essa escola é de excelente qualidade, e essas crianças não aproveitam! E na volta, os demais alunos no metrô lendo bem comportadinhos o material fornecido pela exposição (que era voltado às crianças) e esse grupinho correndo, se batendo e subindo pelos bancos, os professores correndo atrás. Sinceramente não sei o que se deve fazer, mas sinceramente não quero que essa sociedade se transforme em uma sociedade sem respeito, agressiva e machista ao extremo, que é o que vemos em algumas periferias. Aqui os estrangeiros não têm direito de voto, mas existe um movimento muito grande de parte de alguns grupos de estrangeiros para que seja proibido comer ou comercializar alimentos durante o ramadam, querem autorizar o lenço na cabeça nas escolas, horários separados para homens e mulheres nas piscinas, etc. Então sinceramente tenho medo que um dia, em uma periferia sensível as mulheres tenham que viver como em algum país em que o que reina são as leis religiosas. Não quero um dia ser obrigada a sair de casa com o rosto, mãos e corpo inteiro cobertos!