RSS

Amizades e coordenadas geográficas




Eu sempre achei interessante o fato de a proximidade (ou não) de uma pessoa independer das coordenadas geográficas. E isso fica ainda mais óbvio quando se trata de amizade, né gente?

Eu tenho amigos que moram longe e sinto tão próximos...e tenho amigos que moram perto e a distância parece só aumentar a cada ano, até que eles um dia simplesmente desaparecem da minha vida, alguns até mesmo sem avisar (mas admito que já fiz o mesmo então deixa pra lá).

Enfim, estou falando da geografia do coração. E quando a gente mora no exterior, isso fica ainda mais óbvio. Viver no estrangeiro é estar condenado a uma vida de encontros e despedidas, entra ano, sai ano. E eu, que vivo aqui do outro lado do planeta, ainda tenho amizades de mais de 20 anos (quase 30) que mantive no Brasil. Enquanto que algumas amizades que fiz aqui na Holanda não duraram nem uma década (várias duraram muito menos). Acho que eu poderia até escrever um livro inteiro sobre a minha vida de imigrante. Porque é impressionante. Talvez seja eu, mas na minha experiência, tenho mais dificuldades em manter amizades com brasileiros vivendo aqui na Holanda do que com os brasileiros na terrinha.

Como não podia deixar de ser, tenho algumas teorias sobre isso. Acho que é nos momentos de dificuldade que descobrimos quem são nossos amigos e esses momentos ocorrem com uma certa frequencia quando moramos no exterior, longe de nossa família e amigos. Ao morar fora temos de lidar com situações, obstáculos, crises de adaptação e outras pedras no caminho. Por questões de sorte ou genética (entre outros fatores), alguns encontrarão mais pedras no caminho do que outros. Então some as batalhas do dia-a-dia que fazem parte da vida de todos, com as grandes batalhas internas (sim, me refiro a questões de saúde mental) patrocinadas por nossos ancestrais e temos um coquetel explosivo! Não é pra qualquer um.

Dito isso, se no ano passado perdi algumas amizades "graças" ao Facebook  (correndo o risco de me tornar repetitiva mas o blog é meu e eu escrevo o que quero, né?), ainda tenho amigos maravilhosos por cujas existências só tenho a agradecer. Pessoas que acrescentam muito à minha vida e com as quais existe uma afinidade natural, uma amizade que flui como o rio flui para o mar. Me refiro aos famosos "encontros de alma". Chato mesmo é que muitos moram longe - embora cada um deles esteja sempre presente no meu pensamento e no meu coração (até mesmo quando eu fico sem dar notícias).

Um exemplo de amizade assim é uma amiga blogueira daquelas que a afinidade é tanta (talvez porque temos vivido batalhas semelhantes) que é como se ela sempre tivesse feito parte da minha vida. E isso que moramos em partes diferentes do planeta. Muitas vezes leio um post dela e penso: poderia ter sido escrito por mim (a recíproca também é verdadeira). Mas outro dia ela me deu uma notícia ruim e eu fiquei triste. Ela tem vivido uma grande batalha - e não se iludam, as maiores batalhas são aquelas que ninguém vê - e  diante do problema dela, meus problemas automaticamente ficaram pequenininhos...tudo é tão relativo na vida que chega a assustar.

To cut a long story short, me dei conta de como a gente é capaz de ter afeto e amizade genuína por uma pessoa sem nunca sequer ter tido a chance de encontrá-la pessoalmente - o que sempre me faz lembrar aqule belo filme Charing Cross Road  (Nunca te Vi, Sempre te Amei). É que as verdadeiras amizades não se deixam intimidar por coordenadas geográficas. E mais do que em qualquer outro lugar, tenho vivido isso na blogosfera e por isso sempre vou preferir esta plataforma do que qualquer outra na net. Porque enquanto no Facebook a regra é as pessoas passarem uma imagem cor-de-rosa de suas vidas e de quem são (todo mundo quer fazer bonito), nos blogs as pessoas ainda são elas mesmas (em maior ou menor grau). Não dá nem pra começar a comparar a escrita e a comunicação destes dois meios. E eu posso afirmar isso porque tenho este blog há quase 7 anos e já acumulei muita experiência por aqui.

No mais, quando é pra acontecer, as pessoas se acham mesmo. E isso vale tanto para a amizade como para o amor.



Post dedicado às amizades que fiz na blogosfera.




Less is More




Este ano meu blog entrou em outro ritmo - desacelerei mesmo - por vários motivos que já comentei por aqui. Em partes porque ando sem ânimo para escrever (coisa raríssima na vida desta blogueira). Em partes porque tenho filtrado muita coisa, numa tentativa de auto-censura...é que aprendi muito nos últimos anos e confesso que ainda estou digerindo alguns traumas recentes. Felizmente tudo passa, passa mesmo!

Apesar de tudo e de todos, continuo por aqui com minhas divagações, desabafos e especulações. Em ritmo mais lento porque less is more e eu sempre soube disso mais do que ninguém. Se for pra escrever qualquer coisa, prefiro não escrever. E se for pra correr o risco de me expor, também tenho preferido ficar quieta. Mas ainda não sei dizer se isso é um processo meu ou um processo que vem acontecendo na blogosfera. Na dúvida, é melhor não tomar decisões precipitadas, hehehe.

Verdade seja dita: eu sou das "antigas". Meu blog completará sete anos em agosto deste ano, sem estardalhaços nem fogos de artifício. Numa blogosfera em que todo mundo fala de tudo e poucos dizem algo, ainda vejo muito blog sem conteúdo. E nem vou falar dos erros esdrúxulos de português porque não quero ser ranzinza (mas sou formada em Letras então já viram, né?). De resto, já desisti de tentar entender como os blogs funcionam. Mas como não sou boba, também já tirei algumas conclusões.

E fiquem avisados: os blogs não estão morrendo mas em fase de (aguda) reformulação. E isso tem a ver com mudanças na vida virtual das pessoas, como Facebook e Twitter. Pra início de conversa, muito blogueiro esperto já percebou que o  leitor médio mudou muito nos últimos anos (porque a vida é dinâmica, tanto lá fora como aqui na blogosfera). O attention spam  das pessoas é cada vez menor e eu não sou atração de circo nem tenho como missão "entreter" ninguém! Meu blog é mais do que entertainment, , digamos assim. Se bem que eu mesma me divirto escrevendo por aqui. Bem verdade que já me diverti mais mas escrever para mim sempre foi prazer,  no dia em que virar obrigação eu paro mesmo!

Enfim, a cabeça continua a mil, a criatividade sempre em alta e assunto nunca faltou por aqui. O que tem faltado mesmo é vontade de escrever sobre certos assuntos. Quem acompanha este blog, sabe que eu sempre falei de vários assuntos, alguns mais do que outros. E claro, alguns assuntos incomodam.

E a vida segue com suas surpresas, boas e ruins. E as coisas mudam o tempo todo. E as pessoas vem e vão. E a gente vai se adaptando. Um dia de cada vez.


A Europa não é só crise...





Como alguns talvez tenham percebido, ando muito desanimada com o blog....mas não quero abandonar meu cantinho virtual por falta de interação com os leitores até porque, sei que muitos ainda lêem, e apesar dos poucos comentários, o número de visitas diárias não diminuiu! Ou seja, muitos lêem mas são raros os que comentam nos tempos de hoje. E acredito que isso também esteja acontecendo com outros blogueiros. Verdade seja dita: é mais fácil dar Like e Share no Facebook né, gente? Sem falar que tem blog de todo tipo pra todo gosto e percebo que as pessoas tendem a buscar assuntos leves e frugais. E o meu blog sempre teve outro conteúdo (quem lê sabe disso). Eu falo de livros, filmes, experiências, etc. Não tenho saco pra ficar contando casos e fazendo piadinhas, nem escrevo textos curtos pra serem lidos rapidamente. Eu simplesmente escrevo e ponto final.

Mas chega de reclamar (!) e voltemos ao tema deste post...ontem li um artigo muito interessante sobre a Europa, onde o autor comentava que nem tudo é tão ruim como parece, que crise ou não, a Europa ainda é um lugar bom de se viver. E a verdade é que é mesmo. Apesar da crise, do desemprego, da estagnação da indústria e da economia, etc etc etc, a Europa ainda tem um padrão de vida acessível a poucos em outros continentes (África e América do Sul pra início de conversa).

Muitas conquistas sociais daqui, que durante anos ninguém parou para pensar (porque os holandeses não conheciam outra realidade que não a do welfare state)  ainda são apenas sonho em muitos países. E aí pensei no Brasil e na China, dois países vivendo o tal booming econômico. E lembrei da enorme desigualdade social. Então nem preciso dizer mais nada, né? Como disse George Orwell no excelente Animal Farm: "Some are more equal than others". E apesar de adorar o Brasil e sentir saudade de muita coisa, não tenho a menor ilusão de que a vida lá seja fácil pra todo mundo. Porque não é mesmo. A classe média pode ter aumentado mas em geral, as pessoas ainda trabalham muito e pagam muito pelos bens de consumo. Fiquei chocada com os preços quando estive no Rio em 2011 (tudo bem que Rio e São Paulo são as cidades mais caras do Brasil mas mesmo assim). Até supermercado hoje em dia é mais barato aqui na Holanda. Pão, leite, shampoo etc. Sem brincadeira, tenho amigas que vão ao Brasil e levam a mala cheia de shampoos, desodorantes, etc. Em 2011 entendi porque. Sem falar que nunca irei entender porque cargas dá'água um iPad ou Xbox ou Play Station custa mais do que o dobro no Brasil do que aqui (tarifas de importação?). Sai mais em conta viajar pra Miami ou Nova Iorque e comprar tudo lá!

Voltando à Europa, durante décadas os europeus, principalmente os Europeus do norte (Alemanha, Holanda e Escandinávia, mas também França e Inglaterra), viveram uma vida confortável com um certo grau de segurança oferecida pelo governo. Um governo que, bem ou mal, sempre cuidou dos seus cidadãos. Um exemplo? Mãe solteira aqui na Holanda sobrevive (mal mas sobrevive). Mesmo desempregada, ela recebe um auxílio mensal (uma espécie de bolsa desemprego) e vários subsídios (aluguel, plano de saúde, etc). Eu sei disso por experiência própria. Agora imaginem esta mesma situação no Brasil: como uma mãe solteira sem emprego sobrevive? Ela precisa recorrer à família, que com alguma sorte talvez possa oferecer ajuda (ou não). Aqui ao menos as pessoas em situação precária podem contar com o governo. Claro que tem havido cortes em muitos setores, como educação e saúde mas a verdade é que o governo gastou muito durante muito tempo (sem falar nas inúmeras fraudes que volta e meia aparecem nos jornais). E um dia a "mamata" acaba, né? (me pergunto se "mamata" ainda é palavra usada no Brasil, meu vocabulário é de quase 20 anos atrás, rsrsrsrs).

O engraçado é que quanto mais tempo a gente mora na Europa, mais a gente se acostuma com isso tudo. E claro, quando a ajuda diminui (e dimunui mesmo, inevitavelmente) a gente reclama igual holandês que sempre reclamou de tudo! Eu moro há quase 20 anos na Holanda e me pego reclamando às vezes. Aí vejo brasileiros que se mudaram há menos de 3 anos pra Europa (Holanda, Alemanha, França) e noto como eles ainda sabem dar valor as coisas que eu nem mais paro para considerar! Eles ainda estão naquela fase de admiração por tudo que (ainda) funciona neste velho continente, crise ou não. E estão mais do que certos.

Em suma, é tudo uma questão de perspectiva.

A família real holandesa



O assunto do momento aqui na Holanda e também na mídia internacional é o Dia da Rainha, que será comemorado pela última vez amanhã, dia 30 de abril. Isso porque a Rainha Beatrix  (à direita na foto) finalmente decidiu abdicar do trono em favor de seu filho iWllem Alexander  (à esquerda na foto, com sua esposa e futura rainha Máxima no meio). Foram 33 anos de serviço ao povo holandês e ao passar oficialmente o trono para seu filho, o Dia da Rainha (Koninginnedag) passará a ser chamado de Dia do Rei (Koningsdag) a partir do ano que vem.  Confesso que se eu que moro na Holanda há "apenas" 18 anos já vou ter problemas pra me acostumar a falar Koningsdag em vez de Koninginnedag, imagina o povo holandês!

Enfim, amanhã é dia de festa em Amsterdam, a começar porque a cerimônia oficial de coroação do novo Rei será realizada aqui (e difundida em todos os canais de tv nacionais e internacionais). E assim sendo, a prefeitura local e o governo vem organizando há meses este evento histórico. Na verdade, o programa contém vários eventos - desde os para convidados oficiais - como festas e shows ao vivo para o público visitante. Sem falar no tradicional mercado livre espalhado pela cidade. Segundo manda a tradição, todos os anos, no Dia da Rainha,  as cidades holandesas viram mercados livres, em que todo mundo pode vender tudo (ou quase tudo!) e faturar um dinheirinho...as crianças aproveitam a oportunidade para vender seus brinquedos velhos e livros, mas muitos adultos também entram na brincadeira (seja pra vender ou para comprar, dependendo do bolso de cada um). Eu mesma já comprei muitos livros e brinquedos para o Liam a preços simbólicos, em média 1 ou 2 euros! Enfim, dia de festa, com certeza.


Palácio na praça Dam


No programa oficial, o Rijksmuseum (que acaba de ser reaberto após 10 anos de renovação) estará fechado hoje para o público devido ao jantar que será realizado no local com a Rainha e convidados oficiais. Após o jantar, ela irá passar a noite no Palácio Real na praça Dam (onde contrariamente ao que muitos pensam, ela não mora). É que amanhã ela fará seu Discurso de Despedida na varanda do Palácio, para a multidão reunida na praça. E pelo que dizem as más línguas, será uma massa enorme...Se num ano comum, Amsterdam já recebe em média 80.000 visitantes nesta data, imaginem agora com a troca do trono! Eu vou ficar mesmo é em casa porque será um caos entrar e sair do centro (muitas mudanças no transporte público e equipes da polícia espalhadas por toda cidade, como em qualquer evento oficial).

A festa terá vários eventos, entre eles concertos ao ar livre para os visitantes, que virão de todas as partes da Holanda e também muitos alemães, franceses e outros europeus, além de americanos e japoneses que curtem eventos do gênero. Eu mesma já comemorei muito o Dia da Rainha, mais para participar desta grande festa popular do que em homenagem à monarquia holandesa propriamente dita,...Pra ser sincera, nunca fui de monarquias (nem da holandesa, nem da inglesa nem de nenhuma outra). Acho que as verbas investidas para suportar este regime não compensam os serviços fornecidos, digamos assim. Esta semana mesmo uma notícia publicada na mídia causou furor entre os leitores: após receber oficialmente a denominação de Rei da coroa holandesa, Willem Alexander receberá mensalmente cerca de 70.000 reais isentos de impostos, com base em uma renda anual de 850.000 euros (o que pode ser pouca coisa para os políticos corruptos em certos países do continente sul-americano mas é muito, mas muito dinheiro). .Agora convenhamos, em tempos de crise do euro, recessão e cortes de verbas governamentais, eu acho que essas verbas poderiam ser (muito) melhor utilizadas. A começar nos setores de Saúde e Educação, onde tem sido feitos cortes anuais...Não só eu como 20.000 pessoas que assinaram esta semana uma medida pedindo redução drástica do salário real (leia aqui em holandês)


E eu sei que política e religião não se discute...mas o mais interessante nesta estória toda é que, apesar de vivermos no século XXI em que o continente europeu inteiro (alguns mais do que outros) está vivendo um período de crise, ainda assim a maioria dos holandeses apoia a manutenção da Família Real (fora os salários, que diga-se de passagem, raramente são questionados). Por outro lado, os holandeses já reclamaram quando Willem Alexander quis mudar esta data histórica (feriado nacional) para 27 de abril (o dia do seu aniversário). E também reclamaram da Canção Oficial encomendada especialmente para a coroação do novo Rei - primeiro por ela estar cheia de erros (mais de estilo do que gramaticais, pelo que li em um certo jornal) e também por conter um trecho de rap  no meio da canção (de doer os ouvidos, e olha que eu não sou conservadora em termos musicais). Enfim, pequenos detalhes...

Pra quem quiser mais informações sobre a data, o site abaixo oferece informações completas (em inglês):
http://www.koninginnedagamsterdam.nl/queensday.html 


Máxima e Willem Alexander

Reabertura dos museus em Amsterdam


Festa de reabertura do Rijksmuseum

Dizer o que? O país pode estar em crise mas este mês tivemos dois eventos dignos de nota. O primeiro foi a reabertura do maravilhoso Rijksmuseum, que esteve parcialmente fechado para o público para renovação durante 10 anos (os visitantes neste período só tiveram acesso a uma ala do museu e um acervo restrito). A data foi comemorada com presença oficial da rainha da Holanda e sua guarda, show de fogos de artifício e tudo mais. Foram vendidos antecipadamente mais de 80.000 ingresso online e as filas nas primeiras semanas tem sido enormes mas mesmo assim uma amiga que esteve aqui na semana da abertura conseguiu entrar!

E o segundo evento foi a reabertura do Museu Van Gogh para o grande público, que desde o ano passado teve de se conformar com um acerto restrito de pinturas em outro museu da cidade, o Hermitage. Bem verdade que esta renovação durou muito menos do que a renovação do Rijksmuseum mas mesmo assim, é sempre bom saber que os museus agora estão abertos em todo o seu esplendor para os visitantes de todas as partes do mundo.

Diga-se de passagem, em abril a cidade já anda lotada de turistas, muitos chineses, japoneses e...brasileiros! E claro, franceses e ingleses, que sempre curtiram a cidade, por motivos (bem) diferentes, Os franceses curtem os aspectos históricos e culturais (e lotam os museus da cidade), os ingleses são famosos por tomarem altos porres celebrando Despedidas de Solteiro... Alguém aí viu o filme The Hangover? Pois é assim mesmo, para desespero dos moradores da cidade e da polícia que sempre tem de ficar de olho nestes turistas.


O belo Rijksmusem

Rainha Beatrix diante da famosa pintura de Rembrandt

Criando adolescentes




Impressionante como as crianças crescem de uma hora pra outra. Seu filho adorável se transforma subitamente numa pessoa cheia de opiniões e sempre pronta a questionar as suas! Sim, tudo isso faz parte da passagem para a adolescência. Mas a gente leva cada susto! É preciso tempo pra nos acostumarmos com esta nova pessoa dentro de nossa casa. E haja paciência, viu?

Meu filho nunca foi uma criança "difícil" - fora a via crucis que foi o período de testes e exames, diagnóstico de autismo (PPD-NOS) e mudança para a escola especial que já contei aqui no blog (interessados no assunto, leiam o marcador Autismo aqui à direita). Mas agora prestes a completar 13 anos tenho percebido algumas mudanças inevitáveis. E isso por um lado é bom e natural. Por outro lado, haja saco para aturar tanta discussão acalorada e mudanças de humor (e nem vou falar na batalha de todas as manhãs em que mal consigo fazer o menino sair da cama pra ir pra escola). Pensando bem, das mudanças de humor eu nem tenho o direito de reclamar pois eu mesma mudo de humor várias vezes no mesmo dia! Então quem sou eu pra reclamar, né?

Só sei que muito se fala e se escreve sobre a adolescência e apesar de tudo, ela nem me assusta tanto assim ...Verdade seja dita, adolescente pode ser uma criatura irritante e teimosa, com uma grande capacidade de nos tirar do sério a qualquer hora do dia ou da noite. Mas se pararmos pra pensar, um dia nós também fomos assim. Sem falar que a adolescência também é um dos períodos mais ricos e férteis do ser humano, onde descobrimos e criamos pouco a pouco nossa identidade (tudo aquilo que nos diferencia de nossos pais e dos outros). E convenhamos, não há nada de errado nisso. Muito pelo contrário.

De resto, eu posso até estar errada (só o tempo dirá), mas acho que estou bem preparada para os próximos anos...a começar porque crio meu filho de uma forma bem diferente de como fui criada - e nem podia ser diferente, vivemos em outra época e em outro país! Eu e Liam conversamos sobre assuntos que eu nunca sonhei em conversar com a minha mãe. Liam tem uma criação muito mais liberal do que eu tive (e nem podia ser diferente em pleno século XXI). Eu fui muito reprimida na minha adolescência (e olha que eu nem aprontava porque não tive oportunidades para isso). Minha mãe era das antigas que ainda acreditava que uma mulher deveria casar virgem e por aí vocês já podem imaginar o que estou falando, né?


De uma coisa eu tenho certeza: não adianta proibir! Conhecem a estória do fruto proibido? Pois é assim mesmo, quanto mais se proíbe algo, mais este algo se torna interessante...aconteceu comigo (vou poupá-los dos detalhes "sórdidos"). Então ao menos nesta armadilha eu não caio!

Mas isso não significa que não existam regras! Regras existem e limites também. Mas tudo deve ser conversado e discutido, desde que haja respeito de ambas as partes. Comunicação é a base de todo e qualquer relacionamento humano e não podia ser diferente na hora de conversar com adolescentes. Mas comunicar apenas não basta, é precisa ouvir em vez de julgar e criticar (o que, convenhamos, nem sempre é fácil). Não quero de forma alguma restringir o desenvolvimento do meu filho, nem pretendo "moldá-lo" para ser como eu. Mas posso (e devo) orientá-lo em suas escolhas. Porque ele é diferente, tem desejos e sonhos diferentes dos meus quando eu era adolescente. E vive em uma época muito diferente do meu Rio de Janeiro do final dos anos 70, início dos anos 80 (agora vocês podem calcular a minha idade, né?). Ele vive em Amsterdam em pleno século XXI, em plena crise do euro em que aqui no velho continente muitas coisas também estão mudando (algumas para pior, como o racismo e a discriminação).

O que realmente me deixa preocupada hoje em dia é a quantidade de informações que nossos filhos recebem por todo lado, desde muito cedo. "Não se fazem mais crianças como antigamente", diriam os mais velhos. A infância é muito menos ingênua e, em muitos aspectos, nossos filhos amadurecem muito mais cedo do que a minha geração amadureceu. Uma verdadeira explosão de informações na net, Facebook, Twitter, What's App, etc. Sem falar nos inúmeros apps para smartphone que permitem acess 24/7 a  tudo e a todos (por falar em smartphone, adivinhem o que este garoto pediu de aniversário?).

Enfim, criar filhos requer sabedoria, paciência, respeito e acima de tudo, muito amor! Mas acompanhar o desenvolvimento de um filho, desde bebezinho até a adolescência e o início da idade adulta é uma das maiores aventuras que a vida nos proporciona! De uma coisa vocês podem ter certeza:

A gente aprende muito com nossos filhos. Basta ter ouvidos para ouvir e olhos para ver.



Cara de adolescente!







Identidade cultural: Caso 2


Borobudur Stupa, Java, Indonesia



Continuando o assunto do post anterior, este caso é ainda mais intrigante. Então senta que lá vem estória, né?

Meu namorado nasceu na Holanda fiho de imigrantes da Indonésia (Java). Seus pais vieram bem jovens pra cá, ambos antes de completarem 18 anos. E ele nunca visitou a Indonésia nem nunca teve vontade. Detalhe que ele estudou um ano na universidade em Pequim, onde conheceu uma chinesa com a qual foi casado durante 10 anos...Sem falar que ele também morou em Tokyo e conhece até Hong Kong (duas cidades que sonho em conhecer um dia). Mas nada de Indonésia!

O que mais me intriga é que F. é uma das pessoas mais holandesas que conheço, apesar de ambos os pais não serem holandeses. Por outro lado, tenho de levar em consideração o fato de que os pais dele (a mãe faleceu há pouco mais de 2 anos) viveram praticamente suas vidas inteiras aqui na Holanda. Ou seja, menos de 18 anos na Indonésia e quase 70 anos de Holanda. Mas mesmo assim, eu sempre li que a infância - e em especial os primeiros 7 anos, os anos de formação - sempre foi importante e eles foram criados na Indonésia! Complicado isso...

Só sei que quando começamos a namorar (e lá se vão quase 6 anos), eu sempre ficava perplexa com a total falta de interesse de F. em tudo que se relaciona à Indonésia. Pra terem uma idéia, embora a mãe cozinhasse regurarmente pratos da cozinha Indonésia (nos fins de semana, verdade seja dita mas ela cozinhava muito bem), ele nunca tinha ido a um restaurante Indonésio (e aqui na Holanda é o que mais tem, fora os chineses)...até começar a namorar comigo!

Tudo bem que F. já completou 50 anos (!) e isso significa que ele já vive há meio século (!) na Holanda, mas eu continuo sem entender como uma pessoa pode passar a vida inteira sem ter nenhum interesse em suas origens - ou melhor dizendo, a origem de seus pais! Liam, por exemplo, nasceu na Holanda e tem uma criação nos padrões holandeses em muitos aspectos, mas é educado por uma mãe brasileira e isso faz uma diferença enorme! Sem falar no pai inglês, claro. Enfim, Liam convive com três culturas desde que nasceu. E ele adorou conhecer o Brasil, voltou do Rio se achando "carioca" e reclama de alguns aspectos da cultura holandesa (como disse no post anterior, Liam não se sente holandês).

No caso de F., uma das prováveis explicações é que os próprios pais escolheram a Holanda. Eles emigraram ainda jovens para cá com suas respectivas famílias. E um dos principais motivos dessa imigração foi religioso: sua família é cristã num país cada vez mais muçulmano! Pra quem não sabe, a Indonésia é o país com a maior população de muçumanos do mundo. Então, se eu for refletir bem, isso certamente influiu na escolha dos pais (e avós) dele. Mas mesmo assim, você ter pais indonésios e nenhuma curiosidade em conhecer o país onde eles cresceram? Continuo tentando entender...até porque, eu mesma adoraria conhecer a Indonésia (só falta mesmo dinheiro).



Plantações de arroz na Indonésia


Amizades e coordenadas geográficas




Eu sempre achei interessante o fato de a proximidade (ou não) de uma pessoa independer das coordenadas geográficas. E isso fica ainda mais óbvio quando se trata de amizade, né gente?

Eu tenho amigos que moram longe e sinto tão próximos...e tenho amigos que moram perto e a distância parece só aumentar a cada ano, até que eles um dia simplesmente desaparecem da minha vida, alguns até mesmo sem avisar (mas admito que já fiz o mesmo então deixa pra lá).

Enfim, estou falando da geografia do coração. E quando a gente mora no exterior, isso fica ainda mais óbvio. Viver no estrangeiro é estar condenado a uma vida de encontros e despedidas, entra ano, sai ano. E eu, que vivo aqui do outro lado do planeta, ainda tenho amizades de mais de 20 anos (quase 30) que mantive no Brasil. Enquanto que algumas amizades que fiz aqui na Holanda não duraram nem uma década (várias duraram muito menos). Acho que eu poderia até escrever um livro inteiro sobre a minha vida de imigrante. Porque é impressionante. Talvez seja eu, mas na minha experiência, tenho mais dificuldades em manter amizades com brasileiros vivendo aqui na Holanda do que com os brasileiros na terrinha.

Como não podia deixar de ser, tenho algumas teorias sobre isso. Acho que é nos momentos de dificuldade que descobrimos quem são nossos amigos e esses momentos ocorrem com uma certa frequencia quando moramos no exterior, longe de nossa família e amigos. Ao morar fora temos de lidar com situações, obstáculos, crises de adaptação e outras pedras no caminho. Por questões de sorte ou genética (entre outros fatores), alguns encontrarão mais pedras no caminho do que outros. Então some as batalhas do dia-a-dia que fazem parte da vida de todos, com as grandes batalhas internas (sim, me refiro a questões de saúde mental) patrocinadas por nossos ancestrais e temos um coquetel explosivo! Não é pra qualquer um.

Dito isso, se no ano passado perdi algumas amizades "graças" ao Facebook  (correndo o risco de me tornar repetitiva mas o blog é meu e eu escrevo o que quero, né?), ainda tenho amigos maravilhosos por cujas existências só tenho a agradecer. Pessoas que acrescentam muito à minha vida e com as quais existe uma afinidade natural, uma amizade que flui como o rio flui para o mar. Me refiro aos famosos "encontros de alma". Chato mesmo é que muitos moram longe - embora cada um deles esteja sempre presente no meu pensamento e no meu coração (até mesmo quando eu fico sem dar notícias).

Um exemplo de amizade assim é uma amiga blogueira daquelas que a afinidade é tanta (talvez porque temos vivido batalhas semelhantes) que é como se ela sempre tivesse feito parte da minha vida. E isso que moramos em partes diferentes do planeta. Muitas vezes leio um post dela e penso: poderia ter sido escrito por mim (a recíproca também é verdadeira). Mas outro dia ela me deu uma notícia ruim e eu fiquei triste. Ela tem vivido uma grande batalha - e não se iludam, as maiores batalhas são aquelas que ninguém vê - e  diante do problema dela, meus problemas automaticamente ficaram pequenininhos...tudo é tão relativo na vida que chega a assustar.

To cut a long story short, me dei conta de como a gente é capaz de ter afeto e amizade genuína por uma pessoa sem nunca sequer ter tido a chance de encontrá-la pessoalmente - o que sempre me faz lembrar aqule belo filme Charing Cross Road  (Nunca te Vi, Sempre te Amei). É que as verdadeiras amizades não se deixam intimidar por coordenadas geográficas. E mais do que em qualquer outro lugar, tenho vivido isso na blogosfera e por isso sempre vou preferir esta plataforma do que qualquer outra na net. Porque enquanto no Facebook a regra é as pessoas passarem uma imagem cor-de-rosa de suas vidas e de quem são (todo mundo quer fazer bonito), nos blogs as pessoas ainda são elas mesmas (em maior ou menor grau). Não dá nem pra começar a comparar a escrita e a comunicação destes dois meios. E eu posso afirmar isso porque tenho este blog há quase 7 anos e já acumulei muita experiência por aqui.

No mais, quando é pra acontecer, as pessoas se acham mesmo. E isso vale tanto para a amizade como para o amor.



Post dedicado às amizades que fiz na blogosfera.




Less is More




Este ano meu blog entrou em outro ritmo - desacelerei mesmo - por vários motivos que já comentei por aqui. Em partes porque ando sem ânimo para escrever (coisa raríssima na vida desta blogueira). Em partes porque tenho filtrado muita coisa, numa tentativa de auto-censura...é que aprendi muito nos últimos anos e confesso que ainda estou digerindo alguns traumas recentes. Felizmente tudo passa, passa mesmo!

Apesar de tudo e de todos, continuo por aqui com minhas divagações, desabafos e especulações. Em ritmo mais lento porque less is more e eu sempre soube disso mais do que ninguém. Se for pra escrever qualquer coisa, prefiro não escrever. E se for pra correr o risco de me expor, também tenho preferido ficar quieta. Mas ainda não sei dizer se isso é um processo meu ou um processo que vem acontecendo na blogosfera. Na dúvida, é melhor não tomar decisões precipitadas, hehehe.

Verdade seja dita: eu sou das "antigas". Meu blog completará sete anos em agosto deste ano, sem estardalhaços nem fogos de artifício. Numa blogosfera em que todo mundo fala de tudo e poucos dizem algo, ainda vejo muito blog sem conteúdo. E nem vou falar dos erros esdrúxulos de português porque não quero ser ranzinza (mas sou formada em Letras então já viram, né?). De resto, já desisti de tentar entender como os blogs funcionam. Mas como não sou boba, também já tirei algumas conclusões.

E fiquem avisados: os blogs não estão morrendo mas em fase de (aguda) reformulação. E isso tem a ver com mudanças na vida virtual das pessoas, como Facebook e Twitter. Pra início de conversa, muito blogueiro esperto já percebou que o  leitor médio mudou muito nos últimos anos (porque a vida é dinâmica, tanto lá fora como aqui na blogosfera). O attention spam  das pessoas é cada vez menor e eu não sou atração de circo nem tenho como missão "entreter" ninguém! Meu blog é mais do que entertainment, , digamos assim. Se bem que eu mesma me divirto escrevendo por aqui. Bem verdade que já me diverti mais mas escrever para mim sempre foi prazer,  no dia em que virar obrigação eu paro mesmo!

Enfim, a cabeça continua a mil, a criatividade sempre em alta e assunto nunca faltou por aqui. O que tem faltado mesmo é vontade de escrever sobre certos assuntos. Quem acompanha este blog, sabe que eu sempre falei de vários assuntos, alguns mais do que outros. E claro, alguns assuntos incomodam.

E a vida segue com suas surpresas, boas e ruins. E as coisas mudam o tempo todo. E as pessoas vem e vão. E a gente vai se adaptando. Um dia de cada vez.


A Europa não é só crise...





Como alguns talvez tenham percebido, ando muito desanimada com o blog....mas não quero abandonar meu cantinho virtual por falta de interação com os leitores até porque, sei que muitos ainda lêem, e apesar dos poucos comentários, o número de visitas diárias não diminuiu! Ou seja, muitos lêem mas são raros os que comentam nos tempos de hoje. E acredito que isso também esteja acontecendo com outros blogueiros. Verdade seja dita: é mais fácil dar Like e Share no Facebook né, gente? Sem falar que tem blog de todo tipo pra todo gosto e percebo que as pessoas tendem a buscar assuntos leves e frugais. E o meu blog sempre teve outro conteúdo (quem lê sabe disso). Eu falo de livros, filmes, experiências, etc. Não tenho saco pra ficar contando casos e fazendo piadinhas, nem escrevo textos curtos pra serem lidos rapidamente. Eu simplesmente escrevo e ponto final.

Mas chega de reclamar (!) e voltemos ao tema deste post...ontem li um artigo muito interessante sobre a Europa, onde o autor comentava que nem tudo é tão ruim como parece, que crise ou não, a Europa ainda é um lugar bom de se viver. E a verdade é que é mesmo. Apesar da crise, do desemprego, da estagnação da indústria e da economia, etc etc etc, a Europa ainda tem um padrão de vida acessível a poucos em outros continentes (África e América do Sul pra início de conversa).

Muitas conquistas sociais daqui, que durante anos ninguém parou para pensar (porque os holandeses não conheciam outra realidade que não a do welfare state)  ainda são apenas sonho em muitos países. E aí pensei no Brasil e na China, dois países vivendo o tal booming econômico. E lembrei da enorme desigualdade social. Então nem preciso dizer mais nada, né? Como disse George Orwell no excelente Animal Farm: "Some are more equal than others". E apesar de adorar o Brasil e sentir saudade de muita coisa, não tenho a menor ilusão de que a vida lá seja fácil pra todo mundo. Porque não é mesmo. A classe média pode ter aumentado mas em geral, as pessoas ainda trabalham muito e pagam muito pelos bens de consumo. Fiquei chocada com os preços quando estive no Rio em 2011 (tudo bem que Rio e São Paulo são as cidades mais caras do Brasil mas mesmo assim). Até supermercado hoje em dia é mais barato aqui na Holanda. Pão, leite, shampoo etc. Sem brincadeira, tenho amigas que vão ao Brasil e levam a mala cheia de shampoos, desodorantes, etc. Em 2011 entendi porque. Sem falar que nunca irei entender porque cargas dá'água um iPad ou Xbox ou Play Station custa mais do que o dobro no Brasil do que aqui (tarifas de importação?). Sai mais em conta viajar pra Miami ou Nova Iorque e comprar tudo lá!

Voltando à Europa, durante décadas os europeus, principalmente os Europeus do norte (Alemanha, Holanda e Escandinávia, mas também França e Inglaterra), viveram uma vida confortável com um certo grau de segurança oferecida pelo governo. Um governo que, bem ou mal, sempre cuidou dos seus cidadãos. Um exemplo? Mãe solteira aqui na Holanda sobrevive (mal mas sobrevive). Mesmo desempregada, ela recebe um auxílio mensal (uma espécie de bolsa desemprego) e vários subsídios (aluguel, plano de saúde, etc). Eu sei disso por experiência própria. Agora imaginem esta mesma situação no Brasil: como uma mãe solteira sem emprego sobrevive? Ela precisa recorrer à família, que com alguma sorte talvez possa oferecer ajuda (ou não). Aqui ao menos as pessoas em situação precária podem contar com o governo. Claro que tem havido cortes em muitos setores, como educação e saúde mas a verdade é que o governo gastou muito durante muito tempo (sem falar nas inúmeras fraudes que volta e meia aparecem nos jornais). E um dia a "mamata" acaba, né? (me pergunto se "mamata" ainda é palavra usada no Brasil, meu vocabulário é de quase 20 anos atrás, rsrsrsrs).

O engraçado é que quanto mais tempo a gente mora na Europa, mais a gente se acostuma com isso tudo. E claro, quando a ajuda diminui (e dimunui mesmo, inevitavelmente) a gente reclama igual holandês que sempre reclamou de tudo! Eu moro há quase 20 anos na Holanda e me pego reclamando às vezes. Aí vejo brasileiros que se mudaram há menos de 3 anos pra Europa (Holanda, Alemanha, França) e noto como eles ainda sabem dar valor as coisas que eu nem mais paro para considerar! Eles ainda estão naquela fase de admiração por tudo que (ainda) funciona neste velho continente, crise ou não. E estão mais do que certos.

Em suma, é tudo uma questão de perspectiva.

A família real holandesa



O assunto do momento aqui na Holanda e também na mídia internacional é o Dia da Rainha, que será comemorado pela última vez amanhã, dia 30 de abril. Isso porque a Rainha Beatrix  (à direita na foto) finalmente decidiu abdicar do trono em favor de seu filho iWllem Alexander  (à esquerda na foto, com sua esposa e futura rainha Máxima no meio). Foram 33 anos de serviço ao povo holandês e ao passar oficialmente o trono para seu filho, o Dia da Rainha (Koninginnedag) passará a ser chamado de Dia do Rei (Koningsdag) a partir do ano que vem.  Confesso que se eu que moro na Holanda há "apenas" 18 anos já vou ter problemas pra me acostumar a falar Koningsdag em vez de Koninginnedag, imagina o povo holandês!

Enfim, amanhã é dia de festa em Amsterdam, a começar porque a cerimônia oficial de coroação do novo Rei será realizada aqui (e difundida em todos os canais de tv nacionais e internacionais). E assim sendo, a prefeitura local e o governo vem organizando há meses este evento histórico. Na verdade, o programa contém vários eventos - desde os para convidados oficiais - como festas e shows ao vivo para o público visitante. Sem falar no tradicional mercado livre espalhado pela cidade. Segundo manda a tradição, todos os anos, no Dia da Rainha,  as cidades holandesas viram mercados livres, em que todo mundo pode vender tudo (ou quase tudo!) e faturar um dinheirinho...as crianças aproveitam a oportunidade para vender seus brinquedos velhos e livros, mas muitos adultos também entram na brincadeira (seja pra vender ou para comprar, dependendo do bolso de cada um). Eu mesma já comprei muitos livros e brinquedos para o Liam a preços simbólicos, em média 1 ou 2 euros! Enfim, dia de festa, com certeza.


Palácio na praça Dam


No programa oficial, o Rijksmuseum (que acaba de ser reaberto após 10 anos de renovação) estará fechado hoje para o público devido ao jantar que será realizado no local com a Rainha e convidados oficiais. Após o jantar, ela irá passar a noite no Palácio Real na praça Dam (onde contrariamente ao que muitos pensam, ela não mora). É que amanhã ela fará seu Discurso de Despedida na varanda do Palácio, para a multidão reunida na praça. E pelo que dizem as más línguas, será uma massa enorme...Se num ano comum, Amsterdam já recebe em média 80.000 visitantes nesta data, imaginem agora com a troca do trono! Eu vou ficar mesmo é em casa porque será um caos entrar e sair do centro (muitas mudanças no transporte público e equipes da polícia espalhadas por toda cidade, como em qualquer evento oficial).

A festa terá vários eventos, entre eles concertos ao ar livre para os visitantes, que virão de todas as partes da Holanda e também muitos alemães, franceses e outros europeus, além de americanos e japoneses que curtem eventos do gênero. Eu mesma já comemorei muito o Dia da Rainha, mais para participar desta grande festa popular do que em homenagem à monarquia holandesa propriamente dita,...Pra ser sincera, nunca fui de monarquias (nem da holandesa, nem da inglesa nem de nenhuma outra). Acho que as verbas investidas para suportar este regime não compensam os serviços fornecidos, digamos assim. Esta semana mesmo uma notícia publicada na mídia causou furor entre os leitores: após receber oficialmente a denominação de Rei da coroa holandesa, Willem Alexander receberá mensalmente cerca de 70.000 reais isentos de impostos, com base em uma renda anual de 850.000 euros (o que pode ser pouca coisa para os políticos corruptos em certos países do continente sul-americano mas é muito, mas muito dinheiro). .Agora convenhamos, em tempos de crise do euro, recessão e cortes de verbas governamentais, eu acho que essas verbas poderiam ser (muito) melhor utilizadas. A começar nos setores de Saúde e Educação, onde tem sido feitos cortes anuais...Não só eu como 20.000 pessoas que assinaram esta semana uma medida pedindo redução drástica do salário real (leia aqui em holandês)


E eu sei que política e religião não se discute...mas o mais interessante nesta estória toda é que, apesar de vivermos no século XXI em que o continente europeu inteiro (alguns mais do que outros) está vivendo um período de crise, ainda assim a maioria dos holandeses apoia a manutenção da Família Real (fora os salários, que diga-se de passagem, raramente são questionados). Por outro lado, os holandeses já reclamaram quando Willem Alexander quis mudar esta data histórica (feriado nacional) para 27 de abril (o dia do seu aniversário). E também reclamaram da Canção Oficial encomendada especialmente para a coroação do novo Rei - primeiro por ela estar cheia de erros (mais de estilo do que gramaticais, pelo que li em um certo jornal) e também por conter um trecho de rap  no meio da canção (de doer os ouvidos, e olha que eu não sou conservadora em termos musicais). Enfim, pequenos detalhes...

Pra quem quiser mais informações sobre a data, o site abaixo oferece informações completas (em inglês):
http://www.koninginnedagamsterdam.nl/queensday.html 


Máxima e Willem Alexander

Reabertura dos museus em Amsterdam


Festa de reabertura do Rijksmuseum

Dizer o que? O país pode estar em crise mas este mês tivemos dois eventos dignos de nota. O primeiro foi a reabertura do maravilhoso Rijksmuseum, que esteve parcialmente fechado para o público para renovação durante 10 anos (os visitantes neste período só tiveram acesso a uma ala do museu e um acervo restrito). A data foi comemorada com presença oficial da rainha da Holanda e sua guarda, show de fogos de artifício e tudo mais. Foram vendidos antecipadamente mais de 80.000 ingresso online e as filas nas primeiras semanas tem sido enormes mas mesmo assim uma amiga que esteve aqui na semana da abertura conseguiu entrar!

E o segundo evento foi a reabertura do Museu Van Gogh para o grande público, que desde o ano passado teve de se conformar com um acerto restrito de pinturas em outro museu da cidade, o Hermitage. Bem verdade que esta renovação durou muito menos do que a renovação do Rijksmuseum mas mesmo assim, é sempre bom saber que os museus agora estão abertos em todo o seu esplendor para os visitantes de todas as partes do mundo.

Diga-se de passagem, em abril a cidade já anda lotada de turistas, muitos chineses, japoneses e...brasileiros! E claro, franceses e ingleses, que sempre curtiram a cidade, por motivos (bem) diferentes, Os franceses curtem os aspectos históricos e culturais (e lotam os museus da cidade), os ingleses são famosos por tomarem altos porres celebrando Despedidas de Solteiro... Alguém aí viu o filme The Hangover? Pois é assim mesmo, para desespero dos moradores da cidade e da polícia que sempre tem de ficar de olho nestes turistas.


O belo Rijksmusem

Rainha Beatrix diante da famosa pintura de Rembrandt

Criando adolescentes




Impressionante como as crianças crescem de uma hora pra outra. Seu filho adorável se transforma subitamente numa pessoa cheia de opiniões e sempre pronta a questionar as suas! Sim, tudo isso faz parte da passagem para a adolescência. Mas a gente leva cada susto! É preciso tempo pra nos acostumarmos com esta nova pessoa dentro de nossa casa. E haja paciência, viu?

Meu filho nunca foi uma criança "difícil" - fora a via crucis que foi o período de testes e exames, diagnóstico de autismo (PPD-NOS) e mudança para a escola especial que já contei aqui no blog (interessados no assunto, leiam o marcador Autismo aqui à direita). Mas agora prestes a completar 13 anos tenho percebido algumas mudanças inevitáveis. E isso por um lado é bom e natural. Por outro lado, haja saco para aturar tanta discussão acalorada e mudanças de humor (e nem vou falar na batalha de todas as manhãs em que mal consigo fazer o menino sair da cama pra ir pra escola). Pensando bem, das mudanças de humor eu nem tenho o direito de reclamar pois eu mesma mudo de humor várias vezes no mesmo dia! Então quem sou eu pra reclamar, né?

Só sei que muito se fala e se escreve sobre a adolescência e apesar de tudo, ela nem me assusta tanto assim ...Verdade seja dita, adolescente pode ser uma criatura irritante e teimosa, com uma grande capacidade de nos tirar do sério a qualquer hora do dia ou da noite. Mas se pararmos pra pensar, um dia nós também fomos assim. Sem falar que a adolescência também é um dos períodos mais ricos e férteis do ser humano, onde descobrimos e criamos pouco a pouco nossa identidade (tudo aquilo que nos diferencia de nossos pais e dos outros). E convenhamos, não há nada de errado nisso. Muito pelo contrário.

De resto, eu posso até estar errada (só o tempo dirá), mas acho que estou bem preparada para os próximos anos...a começar porque crio meu filho de uma forma bem diferente de como fui criada - e nem podia ser diferente, vivemos em outra época e em outro país! Eu e Liam conversamos sobre assuntos que eu nunca sonhei em conversar com a minha mãe. Liam tem uma criação muito mais liberal do que eu tive (e nem podia ser diferente em pleno século XXI). Eu fui muito reprimida na minha adolescência (e olha que eu nem aprontava porque não tive oportunidades para isso). Minha mãe era das antigas que ainda acreditava que uma mulher deveria casar virgem e por aí vocês já podem imaginar o que estou falando, né?


De uma coisa eu tenho certeza: não adianta proibir! Conhecem a estória do fruto proibido? Pois é assim mesmo, quanto mais se proíbe algo, mais este algo se torna interessante...aconteceu comigo (vou poupá-los dos detalhes "sórdidos"). Então ao menos nesta armadilha eu não caio!

Mas isso não significa que não existam regras! Regras existem e limites também. Mas tudo deve ser conversado e discutido, desde que haja respeito de ambas as partes. Comunicação é a base de todo e qualquer relacionamento humano e não podia ser diferente na hora de conversar com adolescentes. Mas comunicar apenas não basta, é precisa ouvir em vez de julgar e criticar (o que, convenhamos, nem sempre é fácil). Não quero de forma alguma restringir o desenvolvimento do meu filho, nem pretendo "moldá-lo" para ser como eu. Mas posso (e devo) orientá-lo em suas escolhas. Porque ele é diferente, tem desejos e sonhos diferentes dos meus quando eu era adolescente. E vive em uma época muito diferente do meu Rio de Janeiro do final dos anos 70, início dos anos 80 (agora vocês podem calcular a minha idade, né?). Ele vive em Amsterdam em pleno século XXI, em plena crise do euro em que aqui no velho continente muitas coisas também estão mudando (algumas para pior, como o racismo e a discriminação).

O que realmente me deixa preocupada hoje em dia é a quantidade de informações que nossos filhos recebem por todo lado, desde muito cedo. "Não se fazem mais crianças como antigamente", diriam os mais velhos. A infância é muito menos ingênua e, em muitos aspectos, nossos filhos amadurecem muito mais cedo do que a minha geração amadureceu. Uma verdadeira explosão de informações na net, Facebook, Twitter, What's App, etc. Sem falar nos inúmeros apps para smartphone que permitem acess 24/7 a  tudo e a todos (por falar em smartphone, adivinhem o que este garoto pediu de aniversário?).

Enfim, criar filhos requer sabedoria, paciência, respeito e acima de tudo, muito amor! Mas acompanhar o desenvolvimento de um filho, desde bebezinho até a adolescência e o início da idade adulta é uma das maiores aventuras que a vida nos proporciona! De uma coisa vocês podem ter certeza:

A gente aprende muito com nossos filhos. Basta ter ouvidos para ouvir e olhos para ver.



Cara de adolescente!







Identidade cultural: Caso 2


Borobudur Stupa, Java, Indonesia



Continuando o assunto do post anterior, este caso é ainda mais intrigante. Então senta que lá vem estória, né?

Meu namorado nasceu na Holanda fiho de imigrantes da Indonésia (Java). Seus pais vieram bem jovens pra cá, ambos antes de completarem 18 anos. E ele nunca visitou a Indonésia nem nunca teve vontade. Detalhe que ele estudou um ano na universidade em Pequim, onde conheceu uma chinesa com a qual foi casado durante 10 anos...Sem falar que ele também morou em Tokyo e conhece até Hong Kong (duas cidades que sonho em conhecer um dia). Mas nada de Indonésia!

O que mais me intriga é que F. é uma das pessoas mais holandesas que conheço, apesar de ambos os pais não serem holandeses. Por outro lado, tenho de levar em consideração o fato de que os pais dele (a mãe faleceu há pouco mais de 2 anos) viveram praticamente suas vidas inteiras aqui na Holanda. Ou seja, menos de 18 anos na Indonésia e quase 70 anos de Holanda. Mas mesmo assim, eu sempre li que a infância - e em especial os primeiros 7 anos, os anos de formação - sempre foi importante e eles foram criados na Indonésia! Complicado isso...

Só sei que quando começamos a namorar (e lá se vão quase 6 anos), eu sempre ficava perplexa com a total falta de interesse de F. em tudo que se relaciona à Indonésia. Pra terem uma idéia, embora a mãe cozinhasse regurarmente pratos da cozinha Indonésia (nos fins de semana, verdade seja dita mas ela cozinhava muito bem), ele nunca tinha ido a um restaurante Indonésio (e aqui na Holanda é o que mais tem, fora os chineses)...até começar a namorar comigo!

Tudo bem que F. já completou 50 anos (!) e isso significa que ele já vive há meio século (!) na Holanda, mas eu continuo sem entender como uma pessoa pode passar a vida inteira sem ter nenhum interesse em suas origens - ou melhor dizendo, a origem de seus pais! Liam, por exemplo, nasceu na Holanda e tem uma criação nos padrões holandeses em muitos aspectos, mas é educado por uma mãe brasileira e isso faz uma diferença enorme! Sem falar no pai inglês, claro. Enfim, Liam convive com três culturas desde que nasceu. E ele adorou conhecer o Brasil, voltou do Rio se achando "carioca" e reclama de alguns aspectos da cultura holandesa (como disse no post anterior, Liam não se sente holandês).

No caso de F., uma das prováveis explicações é que os próprios pais escolheram a Holanda. Eles emigraram ainda jovens para cá com suas respectivas famílias. E um dos principais motivos dessa imigração foi religioso: sua família é cristã num país cada vez mais muçulmano! Pra quem não sabe, a Indonésia é o país com a maior população de muçumanos do mundo. Então, se eu for refletir bem, isso certamente influiu na escolha dos pais (e avós) dele. Mas mesmo assim, você ter pais indonésios e nenhuma curiosidade em conhecer o país onde eles cresceram? Continuo tentando entender...até porque, eu mesma adoraria conhecer a Indonésia (só falta mesmo dinheiro).



Plantações de arroz na Indonésia


Tecnologia do Blogger.