Se tem uma coisa que tem me preocupado desde a minha viagem ao Brasil é o fato de ter descoberto que na minha família materna dois tios tiverem/tem
Alzheimer (um deles já faleceu e o outro mora numa residência especial). Pra ser sincera, eu nem sabia desse fato até ter ido ao Brasil ano passado. E como minha mãe faleceu relativamente "jovem" aos 70 anos, eu nunca poderei saber se ela teria tido Alzheimer caso vivesse mais anos...
O que realmente me preocupa (e não é de hoje) é que a minha memória piorou muito nos últimos anos...principalmente depois dos anos de stress aqui na Holanda (não foi pouca coisa). Meu único "consolo", se é que se pode chamar isso de consolo, é que problemas de memória também são sintomas comuns da depressão - minha velha conhecida (quem lê este blog, sabe).
Mas o motivo deste post é que no momento estou lendo um romance sobre uma mulher de 50 anos que subitamente recebeu o diagnóstico de Alzheimer...e a estória é de arrepiar porque me reconheço em algumas situações que ela cita como esquecer a chave de casa, chegar na cozinha ou na sala e esquecer o que você foi buscar lá, viver perdendo e achando celulares, trocar o nome das pessoas, não conseguir gravar nenhum número de telefone (não sei até hoje o número de celular do meu namorado, ex-marido, filho nem o meu).
No caso da Alice do livro, trata-se do
early-onset Alzheimer, cujos sintomas começam lá pelos 50 anos (ou antes). O outro tipo, e também mais comum, é o
late-onset Alzheimer, comum em pessoas acima de 70 anos e portanto uma doença típica da velhice. Alice é uma prestigiosa professora de psicologia e linguística da Universidade de Harvard que começa a ter sérios problemas de memória e decide ir ao médico...Após um interrogatório médico e uma bateria de exames, ela recebe o diagnóstico que vai mudar sua vida pra sempre. Em menos de um ano, ela se vê obrigada a abandonar a carreira acadêmica de uma vida inteira.
A escritora baseou-se em relatos de pacientes para escrever o livro e sinceramente...é de tirar o sono! Perder gradativamente não apenas a memória como a capacidade de pensar e de se comunicar pra mim é o fim do mundo. Diga-se de passagem, pra Alice do livro também. A cada mês que passa, ela vê suas capacidades cognitivas se deteriorando, sem poder fazer nada pra retardar este processo cruel e acima de tudo, irreversível. Em um dado momento no livro, Alice afirma até que trocaria sua doença pelo câncer...e acreditem, eu entendi perfeitamente o que ela quis dizer com isso! As palavras e o conhecimento que vem com elas são parte essencial do meu mundo (assim como no mundo acadêmico de Alice). E perdê-las de uma vez por todas me parece um castigo que ninguém merece.
Não poder mais ler, porque você simplesmente não consegue processar mais de 3 ou 4 frases ao mesmo tempo. Não poder participar de uma conversa normal, e repetir a mesma frase na mesma conversa várias vezes porque você esqueceu o que disse há poucos minutos. Não poder mais trabalhar e ter uma vida produtiva. E no último estágio, não conseguir mais se alimentar ou se vestir sozinho, não reconhecer a família e os amigos e nem se lembrar do nomes das pessoas...tudo isso me parece insuportável. Acho que preferiria morrer...
Dito isso, confesso que tenho tentado ser sensata e tocar a vida pra frente porque convenhamos, esta é a única maneira de se viver! Ninguém sabe o que o futuro irá trazer e por isso devemos aproveitar o dia de hoje sem nos preocuparmos muito com o que vem lá adiante. Claro que todo mundo tem questões de saúde na família mas eu ainda estou assimilando esta informação adicional no meu histórico médico. E felizmente, sei que os genes nem sempre definem tudo. Há outros fatores envolvidos e que tem sido estudados por cientistas em todo o mundo. Mas também sei que a cura não existe e que o tratamento disponível nem sempre é eficaz e muitas vezes meramente paliativo.
Pra terminar, se alguém tiver vivenciado isso em sua família, por favor comente aqui...Mais um post da série "Desabafos", prometo aos meus queridos leitores que o próximo post será (bem) mais leve.