sábado, março 20, 2010

Vida de imigrante

Eu moro há 16 anos fora do Brasil e me adaptei a duras penas a uma nova vida na Holanda. Me refiro ao inevitável período de adaptação a uma nova cultura e a uma nova língua que todo estrangeiro passa, em maior ou menor grau (e dependendo da sorte de cada um). A maior certeza que tenho em todos estes anos é que a vida de imigrante não é pra qualquer um! Trata-se de uma vida árdua, com muitas dúvidas e escolhas difíceis. Muitos momentos de medo, solidão e a sensação de que ninguém entende o que estamos passando. Tudo isso faz parte do processo. A vida de imigrante é sem dúvida muito rica de experiências que só quem vive fora de seu país vai entender. Experiências que nos enriquecem e acima de tudo, nos tornam mais fortes. No final das contas, uma jornada ao encontro de si mesmo (não se iludam).

Após (mais) uma batalha vencida nos tornamos mais fortes. Da mesma forma, cada nova conquista na vida do imigrante é motivo de comemoração. E nem me refiro ao básico de conseguir um passaporte estrangeiro porque isso é o de menos, acreditem se quiser! Sim, os procedimentos para conseguir o passaporte estão cada vez mais rígidos mas eu aviso que o problema é bem outro (ou como diriam as más línguas, o buraco é mais embaixo). Você pode ter o passaporte e ser uma pessoa totalmente infeliz e nada adaptada ao lugar onde mora (daquelas que vivem sonhando em voltar pra terrinha). E pode não ter passaporte, viver na ilegalidade e ainda assim criar uma vidinha que te satisfaça, pelo menos por um determinado período da sua vida. Também tem aqueles como eu que ainda não tem o passaporte (mas já podem pedi-lo), não vivem na ilegalidade (mas já viveram) e ainda lutam pra criar uma vida decente para si mesmos. No meu caso específico, fiz algumas escolhas erradas lá no início da jornada - quando ainda não sabia as coisas que sei hoje - e estou corrigindo alguns erros até hoje. Sim, meus caros amigos, havia pedras no caminho. Algumas delas colocadas por mim mesma...

Só sei que hoje em dia se alguém me pergunta se eu acho que vale a pena emigrar, em 90% dos casos respondo sem a menor hesitação: NÃO! Fique aí mesmo onde você está porque fazer uma vida fora do Brasil está cada vez mais difícil e morar no estrangeiro não é pra qualquer um. Sem falar que muitos acreditam que a solução do Brasil está no aeroporto, mas emigrar nunca resolveu os problemas de ninguém. Simplesmente levamos nossos problemas conosco, sendo que o confronto no estrangeiro ainda é mais doloroso...uma viagem sem volta, mas para muitos de nós necessária. No mais, é a velha estória: se você não tem mesmo nada a perder, arrisque! Mas depois não venha reclamar que não avisei.

Aqui na Holanda eu vejo essencialmente dois tipos de brasileiros: os que vivem sonhando em voltar ao Brasil e passam seus dias comparando as coisas aqui e acolá (para estes eu digo: o paraíso não existe e se está tão infeliz aqui, volte). E aqueles que acabam decidindo (por questões meramente pessoais) ficar por aqui mesmo e se propõe a criar uma vida feliz, apesar de tudo e de todos. Eu me encaixo no segundo grupo e evito a companhia do primeiro (fujo mesmo). Sou a primeira a dizer que a vida aqui na Europa não é o paraíso que muitos acreditam...mas convenhamos, (sobre)viver no Brasil também é uma arte! A gente pode ser feliz ou infeliz em qualquer lugar do mundo. O paraíso é uma questão pessoal, como bem disse Richard Bach.

E assim vamos vivendo, um dia de cada vez - como eu mesma costumo dizer. E eu quero hoje acreditar que o pior já passou e que eu aprendi com os meus erros o bastante para não repeti-los. Acima de tudo, quero acreditar que a felicidade é uma escolha pessoal e que por isso, ela independe de coordenadas e fronteiras geográficas. O segredo é ser feliz onde a gente está.

5 comentários:

Maria Valéria disse...

Amei, amiga. Concordo plenamente. Minhã irmã está com o cunhado, mbos em Londres, por escolha pessoal de ambos, e estão felizes lá.
A questão é que muita gente foge mesmo p/ algum lugar achando que isso apagará tds os seus problemas, quando na verdade, os probelmas não deixaram de existir...( tenho uma amiga que está prestes a fazer isso...)
Eu não tenho perfil pra morar fora daqui, gosto de viver no Brasil, apesar de todos os problemas- que são muitos. Quando estive n Alemanha fiquei morrendo de inveja do sist ferroviario e da sua pontualidade com os trens- pensei" ah, como seria bom morar aqui", ou " ah, se no Brasil tbem fosse assim..." , mas caí na real que não existe um lugar onde tem TUDO o que vc quer...
parabéns pelo texto, beijão do outro lado do atlantico;)

Albuq disse...

Oi Beth!
Muito legal teu texto, e confesso que também acredito que "O segredo é ser feliz onde a gente está", não moro em outro país como você, porque aí é um caso bem mais específico, mas devido a melhores condições de estudo e trabalho, moro em uma cidade diferente da que nasci e me criei. Confesso que vez por outra até o cheiro de cafezinho do interior me dá saudade.
A diferença de morar em um lugar que todos te conhecem e te ajudam, para morar em um lugar que todos te olham desconfiados, sem saber exatamente se você é "bom" ou "ruim", é realmente muito difícil. Mas, é assim que se cresce e se aprende, sempre buscando o melhor. Você se descobre!
bjs e ótimo fds!
Sorte sempre!

Anônimo disse...

Oi Beth, belo texto, pra variar.
Hoje mesmo estava comentando na minha aula de yoga (a única que dou e sou orgulhosíssima) porque são todas pacientes com problemas psiquiátricos. Elas me adoram sinto isso, e eu me orgulho e admiro-as, sair de casa uma vez por semana pra fazer yoga...e comigo, sem diploma.
Falei com as meninas sobre ser estrangeira, que é o mesmo que ter uma segunda chance na vida, começar novamente e ir atrás da nossa felicidade, que depende unicamente de nós mesmos. Por mim daria várias aulas por semana, porque ela primeira vez na Holanda estou me sentindo (fora ser mãe) valorizada, útil, e realmente respeitada pelo meu trabalho/esforço.
Graças aos momentos de dor,solidão, depressão, instabilidade e desespero. Sim...o paraíso temos que cultivar todos os dias, dentro de nossas mentes.
Adoro Leiden, adoro a Holanda, nada é perfeito em nenhum lugar do mundo, hehehe.
Boa semana!!!

Antonio Da Vida disse...

Adorei o texto e entendo PERFEITAMENTE cada frase. Quando vc escreve que algumas das pedras foram colocadas por vc... nossa, eu bem sei o que é isso. mas enfim, vamos vivendo!
xxx

Lilly disse...

Belo depoimento, Beth. Gostei especialmente de: "mas emigrar nunca resolveu os problemas de ninguém. Simplesmente levamos nossos problemas conosco, sendo que o confronto no estrangeiro ainda é mais doloroso...". Eu já tive vontade de morar no exterior mas ficou inviável pelas minhas escolhas na vida. De qualquer forma, sempre questionei se não há de um modo geral algo de fuga nesse sonho. Exatamente isso, achar que tudo se resolve fora daqui. Preciso comentar também que senti agora uma certa nostalgia. Richard Bach! Há quantos anos não ouvia alguém citando esse escritor. Já nem me lembrava mais. Deu vontade de reler...

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Vida de imigrante

Eu moro há 16 anos fora do Brasil e me adaptei a duras penas a uma nova vida na Holanda. Me refiro ao inevitável período de adaptação a uma nova cultura e a uma nova língua que todo estrangeiro passa, em maior ou menor grau (e dependendo da sorte de cada um). A maior certeza que tenho em todos estes anos é que a vida de imigrante não é pra qualquer um! Trata-se de uma vida árdua, com muitas dúvidas e escolhas difíceis. Muitos momentos de medo, solidão e a sensação de que ninguém entende o que estamos passando. Tudo isso faz parte do processo. A vida de imigrante é sem dúvida muito rica de experiências que só quem vive fora de seu país vai entender. Experiências que nos enriquecem e acima de tudo, nos tornam mais fortes. No final das contas, uma jornada ao encontro de si mesmo (não se iludam).

Após (mais) uma batalha vencida nos tornamos mais fortes. Da mesma forma, cada nova conquista na vida do imigrante é motivo de comemoração. E nem me refiro ao básico de conseguir um passaporte estrangeiro porque isso é o de menos, acreditem se quiser! Sim, os procedimentos para conseguir o passaporte estão cada vez mais rígidos mas eu aviso que o problema é bem outro (ou como diriam as más línguas, o buraco é mais embaixo). Você pode ter o passaporte e ser uma pessoa totalmente infeliz e nada adaptada ao lugar onde mora (daquelas que vivem sonhando em voltar pra terrinha). E pode não ter passaporte, viver na ilegalidade e ainda assim criar uma vidinha que te satisfaça, pelo menos por um determinado período da sua vida. Também tem aqueles como eu que ainda não tem o passaporte (mas já podem pedi-lo), não vivem na ilegalidade (mas já viveram) e ainda lutam pra criar uma vida decente para si mesmos. No meu caso específico, fiz algumas escolhas erradas lá no início da jornada - quando ainda não sabia as coisas que sei hoje - e estou corrigindo alguns erros até hoje. Sim, meus caros amigos, havia pedras no caminho. Algumas delas colocadas por mim mesma...

Só sei que hoje em dia se alguém me pergunta se eu acho que vale a pena emigrar, em 90% dos casos respondo sem a menor hesitação: NÃO! Fique aí mesmo onde você está porque fazer uma vida fora do Brasil está cada vez mais difícil e morar no estrangeiro não é pra qualquer um. Sem falar que muitos acreditam que a solução do Brasil está no aeroporto, mas emigrar nunca resolveu os problemas de ninguém. Simplesmente levamos nossos problemas conosco, sendo que o confronto no estrangeiro ainda é mais doloroso...uma viagem sem volta, mas para muitos de nós necessária. No mais, é a velha estória: se você não tem mesmo nada a perder, arrisque! Mas depois não venha reclamar que não avisei.

Aqui na Holanda eu vejo essencialmente dois tipos de brasileiros: os que vivem sonhando em voltar ao Brasil e passam seus dias comparando as coisas aqui e acolá (para estes eu digo: o paraíso não existe e se está tão infeliz aqui, volte). E aqueles que acabam decidindo (por questões meramente pessoais) ficar por aqui mesmo e se propõe a criar uma vida feliz, apesar de tudo e de todos. Eu me encaixo no segundo grupo e evito a companhia do primeiro (fujo mesmo). Sou a primeira a dizer que a vida aqui na Europa não é o paraíso que muitos acreditam...mas convenhamos, (sobre)viver no Brasil também é uma arte! A gente pode ser feliz ou infeliz em qualquer lugar do mundo. O paraíso é uma questão pessoal, como bem disse Richard Bach.

E assim vamos vivendo, um dia de cada vez - como eu mesma costumo dizer. E eu quero hoje acreditar que o pior já passou e que eu aprendi com os meus erros o bastante para não repeti-los. Acima de tudo, quero acreditar que a felicidade é uma escolha pessoal e que por isso, ela independe de coordenadas e fronteiras geográficas. O segredo é ser feliz onde a gente está.

5 comentários:

Maria Valéria disse...

Amei, amiga. Concordo plenamente. Minhã irmã está com o cunhado, mbos em Londres, por escolha pessoal de ambos, e estão felizes lá.
A questão é que muita gente foge mesmo p/ algum lugar achando que isso apagará tds os seus problemas, quando na verdade, os probelmas não deixaram de existir...( tenho uma amiga que está prestes a fazer isso...)
Eu não tenho perfil pra morar fora daqui, gosto de viver no Brasil, apesar de todos os problemas- que são muitos. Quando estive n Alemanha fiquei morrendo de inveja do sist ferroviario e da sua pontualidade com os trens- pensei" ah, como seria bom morar aqui", ou " ah, se no Brasil tbem fosse assim..." , mas caí na real que não existe um lugar onde tem TUDO o que vc quer...
parabéns pelo texto, beijão do outro lado do atlantico;)

Albuq disse...

Oi Beth!
Muito legal teu texto, e confesso que também acredito que "O segredo é ser feliz onde a gente está", não moro em outro país como você, porque aí é um caso bem mais específico, mas devido a melhores condições de estudo e trabalho, moro em uma cidade diferente da que nasci e me criei. Confesso que vez por outra até o cheiro de cafezinho do interior me dá saudade.
A diferença de morar em um lugar que todos te conhecem e te ajudam, para morar em um lugar que todos te olham desconfiados, sem saber exatamente se você é "bom" ou "ruim", é realmente muito difícil. Mas, é assim que se cresce e se aprende, sempre buscando o melhor. Você se descobre!
bjs e ótimo fds!
Sorte sempre!

Anônimo disse...

Oi Beth, belo texto, pra variar.
Hoje mesmo estava comentando na minha aula de yoga (a única que dou e sou orgulhosíssima) porque são todas pacientes com problemas psiquiátricos. Elas me adoram sinto isso, e eu me orgulho e admiro-as, sair de casa uma vez por semana pra fazer yoga...e comigo, sem diploma.
Falei com as meninas sobre ser estrangeira, que é o mesmo que ter uma segunda chance na vida, começar novamente e ir atrás da nossa felicidade, que depende unicamente de nós mesmos. Por mim daria várias aulas por semana, porque ela primeira vez na Holanda estou me sentindo (fora ser mãe) valorizada, útil, e realmente respeitada pelo meu trabalho/esforço.
Graças aos momentos de dor,solidão, depressão, instabilidade e desespero. Sim...o paraíso temos que cultivar todos os dias, dentro de nossas mentes.
Adoro Leiden, adoro a Holanda, nada é perfeito em nenhum lugar do mundo, hehehe.
Boa semana!!!

Antonio Da Vida disse...

Adorei o texto e entendo PERFEITAMENTE cada frase. Quando vc escreve que algumas das pedras foram colocadas por vc... nossa, eu bem sei o que é isso. mas enfim, vamos vivendo!
xxx

Lilly disse...

Belo depoimento, Beth. Gostei especialmente de: "mas emigrar nunca resolveu os problemas de ninguém. Simplesmente levamos nossos problemas conosco, sendo que o confronto no estrangeiro ainda é mais doloroso...". Eu já tive vontade de morar no exterior mas ficou inviável pelas minhas escolhas na vida. De qualquer forma, sempre questionei se não há de um modo geral algo de fuga nesse sonho. Exatamente isso, achar que tudo se resolve fora daqui. Preciso comentar também que senti agora uma certa nostalgia. Richard Bach! Há quantos anos não ouvia alguém citando esse escritor. Já nem me lembrava mais. Deu vontade de reler...