quarta-feira, junho 16, 2010

Pão e circo

Original em latim: Panem et circenses.

Juro que tentei mas não deu pra deixar esta passar em branco. Ando bastante apreensiva com os últimos acontecimentos aqui na Holanda. Não, não me refiro à Copa do Mundo e se você pensa que vim aqui pra falar de futebol, pode tirar o cavalinho da chuva.

Eu vim aqui falar é do enorme terremoto semana passada nas eleições para a segunda câmara (Tweede Kamer, composto de 150 deputados eleitos por voto público). Pela primeira vez na história da Holanda, o país deu uma virada de 180 graus para a direita - sim, já haviam sinais de fumaça no ar mas ninguém levou a sério. A Holanda, com sua fama de ser um dos países mais liberais e sociais do mundo, finalmente sucumbiu à virada para a direita do continente europeu. Entre as inúmeras análises políticas sendo feitas nos principais meios de comunicação, uma coisa é certa: o país perdeu definitivamente as rédeas. Agora é preciso uma coalisão de partidos para tentar governar este caos. Palavras-chave: crise econômica, imigração, xenofobia (já vi isso antes).

Nenhum partido teve maioria absoluta nas eleições para governar sozinho, como geralmente acontece. A pergunta do momento é que coalisão é possível e a resposta anda assustando muita gente porque há uma forte possibilidade de uma coalisão com dois partidos de direita e um de extrema-direita, o partido de Geert Wilders. Geert Wilders é um caso à parte, um populista que tem conseguido tirar enorme proveito da recessão econômica e que se tornou conhecido internacionalmente por seu discurso xenófobo ao estilo Le Pen. Todo mundo achava que ele era um palhaço mas a piada perdeu a graça porque seu partido foi o maior vencedor da campanha eleitoral. Vitória que deixou muita gente com vergonha de ser holandês. Eu mesma admito que fiquei com vontade de emigrar novamente.

Então além dos jogos da Copa, o terremoto político tem sido manchete diária em todos os jornais nacionais e em alguns jornais europeus - principalmente na Bélgica, França e Alemanha, países que tem vivido um terremoto semelhante com a ascendência de partidos de extrema-direita e que acompanham de perto os acontecimentos no país vizinho.

Quanto a mim, não sei se rio ou se choro. Panem et circenses.

7 comentários:

Daniduc disse...

He, política é complicado e política numa língua em que não se fala realmente é muito mais. Eu tô ainda estudando o que se passa na Holanda.

O Wilders é perigoso e sabe o que está fazendo. Populista competente, sabe explorar a mídia, o medo irracional e disfarçar-se de palhaço foi um golpe eficiente.

Sempre acho interessante como o PvdA ficando apenas um assento atrás é tratado como grande perdedor e é posto de lado na história. O CDA perdeu mais, bem mais, mas está com mais poder que o PvdA por poder decidir se participa do governo ou não.

Sem dúvida a Holanda ficou menos legal com esse crescimento do PVV - não apenas direita, mas direita raivosa (eu acho a expressão "questão islâmica" assutadoramente parecida com outra expressão de "questão", muito popular nos anos 30).

Mas há esperança: se você ver, se acontecer a coalização CDA-PVV-VVD tem uma maioria de apenas UM assento, o que quer dizer que a Holanda está mais dividida do que unida na direita.

E não vamos esquecer que o CDA, apesar de direita, não exatamente fà do PVV. Veja:

http://www.nrc.nl/binnenland/verkiezingen2010/article2562722.ece/CDA-prominenten_wijzen_coalitie_met_PVV_af

e de hoje:

http://www.nrc.nl/binnenland/verkiezingen2010/article2564741.ece/Verzet_in_CDA_tegen_coalitie_met_PVV_groeit

Tá, tudo bem que é o NRC, claramente anti-PVV, mas ainda não aconteceu a coalização de direita. Aguardemos.

(eu concordo com os analistas da UvA que dizem que em menos de ano teremos eleição de novo. O que pode ser boa notícia - se os adversários agora levarem o Wilders mais a sério - ou não. Tenderá a polarizar mais, de qqr maneira).

Albuq disse...

Oi Beth!

realmente política é muito complicado, principalmente porque os político tem interesses mariores pessoais do que no coletivo. Geralmente se esquecem que estão ali como representantes, quando ganham vão organizar a vida pessoal.

bjs

Beth Blue disse...

Concordo, se política é complicado, ainda mais em língua estrangeira! No meu caso, que moro aqui há mais de 15 anos, a língua não é mais empecilho mas algumas coisas continuam não fazendo o menor sentido pra mim! Como você, tenho acompanhado de perto as notícias, inclusive a última do CDA.

Quanto ao CDA, um dos problemas mais óbvios é que ele na verdade foi o grande perdedor dessas eleições e não tem cacife - muito menos popularidade - no momento pra fazer parte do governo.

Pra complicar, o VVD se recusa a trabalhar junto com o segundo maior partido, o PvdA (Partido dos trabalhadores, trocando em miúdos pra quem não mora aqui). O que mais me impressiona é que o VVD prefere discutir uma possível coalisão com o partido xenófobo do Wilders ao mesmo tempo em que afirma que não há pontos de acordo com o PvdA, tradicional partido de esquerda.

Enfim, quem viver verá.

Jaboticaba Preta disse...

ola beth. obrigada pelo comentário lá no meu blog. Assim que puder, visitarei teu blog mais afundo.

beijocas ;)

Daniduc disse...

Alá, Beth, escapamos do CDA-VVD-PVV graças ao CDA! phew. :)

tania disse...

Esse post foi meio banho de água fria, porque lendo aquele livro sobre as mulheres que foram viver na Holanda - sobre o qual comentei contigo aqui no blog - me deu uma vontade danada de fazer as malas e ir também! Aí vem vc me dizer que a direita tá com tudo e não tá prosa? Aaaah, Beth, não me desanima, mulher! Mas, tá, vou ver como andam as coisas lá pro lado da Alemanha... Se bem que me parece que essa tendência é européia (ocidental), é mais geral. E as restrições aos imigrantes também. Enfim, viagem aqui da minha cabeça, não repare. Deve ter a ver com minhas insatisfações recentes no trabalho e a vontade de mudar de ares.
Beijo

fefa disse...

Beth, é assustador mesmo! E mais ainda ao ver que não foi só por aqui... Logo em seguida, as eleições da Bélgica e o tão temido resultado. Ainda pior que na Holanda. Ao menos a tão esperada (pelo wilders) coalizão deu para trás. A reação do Wilders a isso foi tão forte, tão inflamada... Vamos ver o que vai acontecer nesses 4 anos! Mas de tudo isso o que mais me choca é o apoio de alguns MUITOS estrangeiros ao Wilders, inclusive brasileiros e uma xenofobia forte entre os estrangeiros. Isso é ainda pior. Triste. Excelente post e um blog maravilhoso. Parabéns

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Pão e circo

Original em latim: Panem et circenses.

Juro que tentei mas não deu pra deixar esta passar em branco. Ando bastante apreensiva com os últimos acontecimentos aqui na Holanda. Não, não me refiro à Copa do Mundo e se você pensa que vim aqui pra falar de futebol, pode tirar o cavalinho da chuva.

Eu vim aqui falar é do enorme terremoto semana passada nas eleições para a segunda câmara (Tweede Kamer, composto de 150 deputados eleitos por voto público). Pela primeira vez na história da Holanda, o país deu uma virada de 180 graus para a direita - sim, já haviam sinais de fumaça no ar mas ninguém levou a sério. A Holanda, com sua fama de ser um dos países mais liberais e sociais do mundo, finalmente sucumbiu à virada para a direita do continente europeu. Entre as inúmeras análises políticas sendo feitas nos principais meios de comunicação, uma coisa é certa: o país perdeu definitivamente as rédeas. Agora é preciso uma coalisão de partidos para tentar governar este caos. Palavras-chave: crise econômica, imigração, xenofobia (já vi isso antes).

Nenhum partido teve maioria absoluta nas eleições para governar sozinho, como geralmente acontece. A pergunta do momento é que coalisão é possível e a resposta anda assustando muita gente porque há uma forte possibilidade de uma coalisão com dois partidos de direita e um de extrema-direita, o partido de Geert Wilders. Geert Wilders é um caso à parte, um populista que tem conseguido tirar enorme proveito da recessão econômica e que se tornou conhecido internacionalmente por seu discurso xenófobo ao estilo Le Pen. Todo mundo achava que ele era um palhaço mas a piada perdeu a graça porque seu partido foi o maior vencedor da campanha eleitoral. Vitória que deixou muita gente com vergonha de ser holandês. Eu mesma admito que fiquei com vontade de emigrar novamente.

Então além dos jogos da Copa, o terremoto político tem sido manchete diária em todos os jornais nacionais e em alguns jornais europeus - principalmente na Bélgica, França e Alemanha, países que tem vivido um terremoto semelhante com a ascendência de partidos de extrema-direita e que acompanham de perto os acontecimentos no país vizinho.

Quanto a mim, não sei se rio ou se choro. Panem et circenses.

7 comentários:

Daniduc disse...

He, política é complicado e política numa língua em que não se fala realmente é muito mais. Eu tô ainda estudando o que se passa na Holanda.

O Wilders é perigoso e sabe o que está fazendo. Populista competente, sabe explorar a mídia, o medo irracional e disfarçar-se de palhaço foi um golpe eficiente.

Sempre acho interessante como o PvdA ficando apenas um assento atrás é tratado como grande perdedor e é posto de lado na história. O CDA perdeu mais, bem mais, mas está com mais poder que o PvdA por poder decidir se participa do governo ou não.

Sem dúvida a Holanda ficou menos legal com esse crescimento do PVV - não apenas direita, mas direita raivosa (eu acho a expressão "questão islâmica" assutadoramente parecida com outra expressão de "questão", muito popular nos anos 30).

Mas há esperança: se você ver, se acontecer a coalização CDA-PVV-VVD tem uma maioria de apenas UM assento, o que quer dizer que a Holanda está mais dividida do que unida na direita.

E não vamos esquecer que o CDA, apesar de direita, não exatamente fà do PVV. Veja:

http://www.nrc.nl/binnenland/verkiezingen2010/article2562722.ece/CDA-prominenten_wijzen_coalitie_met_PVV_af

e de hoje:

http://www.nrc.nl/binnenland/verkiezingen2010/article2564741.ece/Verzet_in_CDA_tegen_coalitie_met_PVV_groeit

Tá, tudo bem que é o NRC, claramente anti-PVV, mas ainda não aconteceu a coalização de direita. Aguardemos.

(eu concordo com os analistas da UvA que dizem que em menos de ano teremos eleição de novo. O que pode ser boa notícia - se os adversários agora levarem o Wilders mais a sério - ou não. Tenderá a polarizar mais, de qqr maneira).

Albuq disse...

Oi Beth!

realmente política é muito complicado, principalmente porque os político tem interesses mariores pessoais do que no coletivo. Geralmente se esquecem que estão ali como representantes, quando ganham vão organizar a vida pessoal.

bjs

Beth Blue disse...

Concordo, se política é complicado, ainda mais em língua estrangeira! No meu caso, que moro aqui há mais de 15 anos, a língua não é mais empecilho mas algumas coisas continuam não fazendo o menor sentido pra mim! Como você, tenho acompanhado de perto as notícias, inclusive a última do CDA.

Quanto ao CDA, um dos problemas mais óbvios é que ele na verdade foi o grande perdedor dessas eleições e não tem cacife - muito menos popularidade - no momento pra fazer parte do governo.

Pra complicar, o VVD se recusa a trabalhar junto com o segundo maior partido, o PvdA (Partido dos trabalhadores, trocando em miúdos pra quem não mora aqui). O que mais me impressiona é que o VVD prefere discutir uma possível coalisão com o partido xenófobo do Wilders ao mesmo tempo em que afirma que não há pontos de acordo com o PvdA, tradicional partido de esquerda.

Enfim, quem viver verá.

Jaboticaba Preta disse...

ola beth. obrigada pelo comentário lá no meu blog. Assim que puder, visitarei teu blog mais afundo.

beijocas ;)

Daniduc disse...

Alá, Beth, escapamos do CDA-VVD-PVV graças ao CDA! phew. :)

tania disse...

Esse post foi meio banho de água fria, porque lendo aquele livro sobre as mulheres que foram viver na Holanda - sobre o qual comentei contigo aqui no blog - me deu uma vontade danada de fazer as malas e ir também! Aí vem vc me dizer que a direita tá com tudo e não tá prosa? Aaaah, Beth, não me desanima, mulher! Mas, tá, vou ver como andam as coisas lá pro lado da Alemanha... Se bem que me parece que essa tendência é européia (ocidental), é mais geral. E as restrições aos imigrantes também. Enfim, viagem aqui da minha cabeça, não repare. Deve ter a ver com minhas insatisfações recentes no trabalho e a vontade de mudar de ares.
Beijo

fefa disse...

Beth, é assustador mesmo! E mais ainda ao ver que não foi só por aqui... Logo em seguida, as eleições da Bélgica e o tão temido resultado. Ainda pior que na Holanda. Ao menos a tão esperada (pelo wilders) coalizão deu para trás. A reação do Wilders a isso foi tão forte, tão inflamada... Vamos ver o que vai acontecer nesses 4 anos! Mas de tudo isso o que mais me choca é o apoio de alguns MUITOS estrangeiros ao Wilders, inclusive brasileiros e uma xenofobia forte entre os estrangeiros. Isso é ainda pior. Triste. Excelente post e um blog maravilhoso. Parabéns