domingo, setembro 30, 2012

Crianças medicadas

Este é (mais) um assunto que ainda não comentei aqui no blog especificamente mas que decidi fazer agora depois de uma discussão interessante que tive ontem com uma amiga. Na verdade, o assunto sempre me despertou atenção e de certa forma, posso dizer que de uns tempos pra cá consegui formar a minha opinião - com base não apenas no que li (livros, artigos de revista e internet) como em minha experiência própria com medicamentos usados no tratamento psiquiátrico. Sim, eu tomo antidepressivos há anos e nunca escondi isso porque não vejo motivo para tal. Eu sofro de uma doença invisível, sei melhor do que ninguém como ela me afeta e afeta a minha vida pessoal e profissional e sou (muito) grata por ter acesso a medicamentos que minha mãe nunca teve! Enfim, para alguma coisa servem os avanços da ciência. Isso não quer dizer que eu concorde com o número cada vez maior de pessoas que tomam antidepressivos pelo mundo afora...eu acho até que uma grande parte poderia (tentar) lidar com o problema de outra forma (a começar por diversos tipos de terapia) antes de apelar para a indústria farmacêutica. Mas também li que em casos graves, o medicamento não apenas funciona como é recomendado...e eu vivi isso na pele então só posso concordar! Enfim, cada caso é um caso.

Mas neste post eu queria falar sobre as crianças medicadas...e acima de tudo, da questão do EXCESSO. A quantidade de crianças que  tem sido diagnosticadas nos últimos 5 anos como tendo ADHD (Attention Deficit Hiperactivity Disorder) é cada vez maior, e não apenas nos EUA (no Brasil já se percebe esta tendência, como comentou uma amiga minha que por acaso, é psiquiatra infantil). Fala-se em uma epidemia mundial...e sem dúvida, a indústria farmacêutica nunca faturou tanto como nestes tempos modernos em que quase toda criança acaba recebendo, mais cedo um mais tarde, um rótulo. E com o rótulo vem muitas vezes uma receita médica. E isso cria uma questão delicada.

Na minha época de escola (anos 70) não existia nada disso...mas desde então, admito que a psiquiatra como ciência evoluiu -assim como muita coisa à nossa volta, só quem é cego não vê. E a gente precisa aceitar isso. Na minha opinião de leiga, o problema são os diagnósticos ou melhor dizendo: a dificuldade em estabelecê-los. Eu juro que não gostaria de ser psiquiatra infantil porque a responsabilidade de um rótulo me parece enorme. Na verdade, acredito que em alguns casos o diagnóstico seja mesmo correto (e o uso de medicamentos inevitável) mas não é tão simples assim...

Pra complicar ainda mais, o manual DSM, a famosa "bíblia da psiquiatria", está sempre revendo definições e dizem as más línguas que na próxima edição alguns distúrbios irão simplesmente deixar de existir. Entre eles, a Síndrome de Asperger. Isso afetará uma enorme comunidade de pessoas (crianças e adultos) que, em maior ou menor grau, se "encontraram" neste rótulo. Um exemplo famoso de Asperger é a cientista Temple Grandin. Existe até um apelido carinhoso na mídia e na literatura especializada (não sou psiquiatra mas li muito sobre o assunto): "ASPIE". Então eu me pergunto como essas pessoas irão reformular suas vidas quando a base da sua identidade deixa de existir da noite pro dia, digamos assim...O que você faria?

A mensagem óbvia é que devemos, antes de mais nada, aprender a lidar com rótulos...quem sofre desses distúrbios sabe disso muito bem (e eu vou incluir aqui a depressão). Porque uma pessoa é muito mais do que um rótulo - e não pode nem deveria ser limitada por ele (seja o limite imposto por ela mesma ou por pessoas ao seu redor). Infelizmente muitos esquecem disso...e em caso de crianças, são os próprios pais que encontram a "salvação" nesses rótulos e nos medicamentos que os acompanham (Ritalin, por ex, é o medicamento mais usado no tratamento de ADHD).

Na maioria das vezes, é muito mais fácil lidar com uma criança (devidamente) medicada do que com uma criança hiperativa que não consegue parar no mesmo lugar um minuto, não consegue se concentrar e acaba tendo um redimento escolar pobre, briga com Deus e o mundo porque não sabe controlar sua raiva, etc etc etc. Sim, essas crianças sofrem muito em casa e na escola, e algumas delas realmente tem distúrbios que podem e devem ser tratados com todos os meios disponíveis. Mas NUNCA para facilitar a vida dos pais e sim das próprias crianças! Acho que aí está a chave do problema. Se o medicamento em questão oferece mais vantages do que desvantagens (leia-se efeitos colaterais) e melhora o funcionamento e acima de tudo a qualidade de vida da criança, eu acho OK. Mas medicar só pra "facilitar" a vida dos pais e educadores, aí acho errado.

Felizmente para mim, ainda não existe medicamento para autismo! Eu digo felizmente porque tenho certeza quase absoluta de que se existisse, eu teria de fazer a difícil escolha de decidir medicar ou não o meu filho...pensando bem, provavelmente não medicaria. Isso porque meu filho tem um grau muito leve de autismo (muito diferente das crianças com casos clássicos de autismo que vivem literalmente em outro mundo). Ele é uma criança inteligente, sociável e que não precisa ser medicado para melhorar seu rendimento escolar...bem verdade que a concentração continua sendo um problema e por isso ele ainda está numa escola especial. Sua classe tem 16 alunos em vez dos 30 alunos que as escolas de Amsterdam costumam ter. E eles tem ainda workshops com temas ligados ao desenvolvimento emocional, medos, insegurança, etc (faalangst em holandês é um desses treinamentos). Nesse aspecto, Liam teve a sorte de ter um diagnóstico porque isso lhe deu acesso a uma educacão especial e personalizada que ele não teria de outra forma. E sem dúvida, foi justamente esta educação que permitiu que ele chegasse até onde chegou. Enfim, uma faca de dois gumes!

Para finalizar um assunto polêmico, quero recomendar um ótimo documentário que assisti chamado America's Medicated Kids, do jornalista britânico Louis Theroux. Este documentário está disponível no YouTube a todos interessados - não apenas profissionais como, principalmente, pais de crianças rotuladas como tendo um desses distúrbios (ADHD, autismo, PDD-NOS, bipolar, etc).

9 comentários:

Eliana disse...

Pois é Beth, cada vez aparecem mais rótulos, mas isso se deve simplesmente ao avanço da psiquiatria ou a outro fator ainda desconhecido no ambiente onde estamos inseridos? A que se deve o aumento das crianças com ADHD? Ou seja, porque se encontram cada vez mais autistas, mais "aspargos", mais super hiper ativas, depressivas? É isso que eu me pergunto? Claro, elas podem ter sempre existido...e só agora diagnosticadas. Mas aí é que tá...há uma média para a normalidade, ok, mas eu me questiono sobre as causas disso tudo. Às vezes, eu me pergunto se eu sou "normal" ou se posso ter algum distúrbio. Por um lado, acho importante, já que as pessoas acabam sendo direcionadas para um caminho onde possam desenvolver suas pontencialidades a seu tempo. Porque ser portadora de uma característica e não ser bem direcionado, realmente é muito complicado. Agora acho mesmo que as pessoas precisam acabar com certos "pre conceitos"...afinal cada ser tem suas próprias características e limitações. Bom, só pensamentos meus por aqui...bom domingo.

Maria Valéria disse...

Excelente seu post para reflexão
Já perguntei sobre isso para meu medico, o qual também atende crianças, e ele respondeu que tem crianças de menos sendo medicadas, ou seja, subdiagonosticadas ou sem diagnostico,
Estranhei ele ter respondido assim, mas confio nele como profissional, tanto que comigo ele sempre acerta ( também tenho depressão pra te fazer compranhia,..)... e nao quero outro medico que nao seja ele,
Talvez ele tenha querido dizer, que ao mesmo tempo que existem rótulos desnecessários, existem casos reais de crianças hiperativas que sao passados despercebidos, encarados como ' manha' ' birra' ,quando a criança poderia ter uma qualidade de vida melhor se fosse devidamente tratada,
Excelente tópico, na próxima ver que eu ver meu medico vou perguntar a ele de novo, dai te conto,
Beijao!!!!

Anônimo disse...

Beth, eu nao poderia ter descrito melhor a situacao. Concordo com TUDO o que voce diz, principalmente no que se refere aos rotulos que nossas criancas precisam para poderem se desenvolver, recebendo o auxilio e educacao necessarios para seu desenvolvimento.
Ter recebido o diagnostico PDD-Nos, abriu todo um mundo para meu filho. Por ele ser inteligente o suficiente, aprendeu o significado (um tanto complicado) do disturbio. Ele conseguiu formar um quadro de como seu cerebro funciona, muitas vezes pesquisando, ele mesmo, na internet, exemplos e referencias de outras pessoas com essa variedade de autismo.
Ninguem deveria temer um diagnostico - e o consequente uso ou nao de medicamentos.
Quanto `as criancas com ADHD, acredito que todas deveriam ser devidamente examinadas, a fim de serem - tambem devidamente - medicadas. Deve-se ter muito cuidado ao prescrever-se remedios, pois professores e pais estressados NAO SAO MEDICOS!!!
E ainda assim, mesmo que o diagnostico seja correto, nem toda crianca sera' auxiliada (somente) com remedios. Bom senso em primeiro lugar. Sempre.
Finalmente, gostei muito da colocacao da ELIANA, acima. Todo esse aumento universal de diagnosticos de doencas neurologicas/psiquiatricas, tem uma origem. Sou daquelas que acreditam que a base desses disturbios encontra-se no meio ambiente e nas mutacoes `as quais a Natureza esta' condicionada por excelencia biologica.
Last but not least...you are a hell of a good mother!!!

Fatima

Beth Blue disse...

Fatima,

If am a hell of a good mother, so are you! I think we just learned to choose our battles along the way...e o que não nos mata, nos fortalece né?

Só acho que informação é fundamental em tempos modernos...nem que seja para aprendermos mais sobre as "armas" disponíveis.

Moral da estória: cada caso é um caso. E um rótulo pode ser bom ou ruim, depende de como a família -e principalmente a criança - aprende a lidar com ele. E antes de mais nada, de um diagnóstico bem feito!

Beth Blue disse...

Eliana,

Não sou cientista mas gosto de dar palpites...e acho que você tocou num ponto essencial. Acredito que a quantidade de diagnósticos seja uma combinação de dois (ou mais) fatores: os avanços da ciência e o mundo "doente" em que vivemos.

Eu mesma já cheguei a conclusão que louco mesmo e o mundo que criamos (sim, nós criamos). E depois ainda dizem que eu é que sou louca. Sabe-se lá se todos estes distúrbios não seriam um sintoma de uma doença muito maior da humanidade?

Anônimo disse...

Bethinha,as dúvidas movem a ciência e permitem o progresso;são imprescindíveis para o desenvolvimento de qualquer área de conhecimento.
As edições da CID e do DSM, estão sempre sofrendo alterações, que ocorrem através de um processo dialético entre pesquisas e a prática dos profissionais envolvidos.
É inquestionável que existem diagnósticos errados e prescrições equivocadas de medicamentos.No entanto, o discurso contra a medicação(muito utilizado na mídia brasileira), me assusta e preocupa.
Quantas crianças moram em cidades mais afastadas e não possuem acesso aos médicos especialistas? Quantas crianças sofreram uma vida inteira por falta de um tratamento adequado ao seu transtorno e quando, finalmente, são diagnosticadas e tratadas, aparece no programa da Ana Maria Braga ou no Jornal Hoje uma infeliz reportagem que trata do excesso de medicalização e seus efeitos colaterais. Pq tais programas nunca trataram da falta de diagnósticos e medicamentos adequados?
Pq não nos preocupamos com as crianças subdiagnosticadas?
Parafraseando Paulo Mattos(Presidente da Associação Brasileira de TDAH), os antibióticos são, muitas vezes,prescritos de modo errado e nem por isso seu uso é abolido,pois curam e salvam vidas quando usados corretamente.
Aproveito para deixar aqui uma carta de esclarecimento à sociedade sobre o TDAH, seu diagnóstico e tratamento.
http://www.tdah.org.br/br/noticias/reportagens/item/359-manifesto-oficial-de-esclarecimento-%C3%A0-sociedade-sobre-o-tdah-seu-diagn%C3%B3stico-e-tratamento.html


Fabiana Menezes

Beth Blue disse...

Fabiana, muito obrigada pelo comentário! E que interessante que justamente duas pessoas que trabalham na área médica comentaram sobre o problema de crianças subdiagnosticadas.

É certamente o outro lado da moeda e muito importante que as pessoas saibam disso. A moda na mídia é, como você mesma disse, "meter pau" nos medicamentos. Mas como eu mesma disse no post (e repito): cada caso é um caso e para algumas crianças o diagnóstico e o medicamento fazem toda a diferença! E o seu exemplo dos antibióticos também é perfeito.

Quanto ao documentário em questão, eu gostei justamente porque ele não sai logo criticando mas tenta entender a situação. E para isso, passa uns dias hospedado na casa de uma família onde o menino tem diagnóstico de ADHD e bipolar...

Anita disse...

Beth, li tudo do seu post e dos comentaristas.
Meus filhos não tem ADHD. Mas eles convieram de perto na pós escola (aliás até antes, na creche) com um par de crianças com ADHD e especilamente um que estava saindo fora do controle.
Eu via o pai chegando à escola muito esgotado, de cabeça baixa. E a mãe um fiapo, até com pouco cabelo ela estava. Depois ela começou a ter muitas espinhas. O garoto era PARA LA de hiper ativo. Falava altíssimo, agudíssimo, se movimentava demais e anos mais tarde passou a bater no meu filho (dava cascudos, enforcava, etc.)
Eu levei um susto quando vi no mural a foto dos pais quando tiveram esse garoto. Pareciam bonitos, saudáveis, felizes e isso era apenas uns seis, sete anos atras.
Ouvi dizer que uma noite numa reunião de pais e alunos a mãe desse garoto deu um depoimento muito emotivo contando da experiência de ter um filho com ADHD.
Logo depois eu vi que o garoto mudou da água para o vinho. Morreu o antigo e apareceu uma criança que não esbarrava e pistoeava em meio exército, nao gritava e interagia educadamente com os outros.
A mãe voltou a ficar com a pele boa e o pai voltou a sorrir e levantar a cabeça. Agora o cabelo dela está voltando.
Nesse caso extremo a medicação parece ter mudado (para melhor) a vida de todos.

Agora, se for um ADHD brando vamos por a molecada para pular bastante com aulas de ginática extras, brincar bastante na rua e tomar "visolie" que ajuda na concentração. E talvez um dos pais dedicar mais tempo aos estudos num ambiente calmo com os filhos.

Mas quem sou eu para dar uma opinião no assunto ???

Milena F. disse...

O tema é muito complexo, como muitos que você compartilha conosco. Mesmo sendo psicóloga, acredito que em muitos casos a medicação, em dose acertada, é necessária. Permite à criança de aprender e viver dentro da "norma" (o que muita gente critica), e permite aos pais e professores realizarem uma troca com a criança, o que geralmente seria difícil. A criança com esses transtornos acaba sendo detestada por todos, muitas vezes mesmo os pais, então se um comprimidinho vai ajudar as relações afetivas, um ponto para ele...
Quem quer viver por exemplo perto de um esquizofrênico não medicado? E que vida ele tem sem medicação?
O que acontece é que não existem ainda estudos sérios e satisfatórios sobre os efeitos da medicação a longo termo, e como vc disse existe muita exageração.
Como dizer que todo mundo tem depressão. Sinto muito, mas temos que saber diferenciar depressão de tristeza!!! Quando meu avô faleceu, a médica da minha avó receitou antidepressivo e ela deve estar tomando até hoje, mas sofrer pela morte de um ente querido é normal, faz parte da vida. O namorado da minha colega terminou o namoro de 2 anos, ela chorou horrores e o médico receitou anti-depressivo. Também é normal sofrer com uma relação que chega ao fim. O que acontece com a nossa geração é que é muito fácil ter uma satisfação imediata com uma medicação do que passar por uma situação difícil de luto ou separação (na verdade é necessário elaborar o luto nos dois casos). Minha avó diz que adora tomar o seu medicamento e depois disso, pode acontecer a situação mais difícil do mundo e ela não "sente nada".

Tecnologia do Blogger.

Crianças medicadas

Este é (mais) um assunto que ainda não comentei aqui no blog especificamente mas que decidi fazer agora depois de uma discussão interessante que tive ontem com uma amiga. Na verdade, o assunto sempre me despertou atenção e de certa forma, posso dizer que de uns tempos pra cá consegui formar a minha opinião - com base não apenas no que li (livros, artigos de revista e internet) como em minha experiência própria com medicamentos usados no tratamento psiquiátrico. Sim, eu tomo antidepressivos há anos e nunca escondi isso porque não vejo motivo para tal. Eu sofro de uma doença invisível, sei melhor do que ninguém como ela me afeta e afeta a minha vida pessoal e profissional e sou (muito) grata por ter acesso a medicamentos que minha mãe nunca teve! Enfim, para alguma coisa servem os avanços da ciência. Isso não quer dizer que eu concorde com o número cada vez maior de pessoas que tomam antidepressivos pelo mundo afora...eu acho até que uma grande parte poderia (tentar) lidar com o problema de outra forma (a começar por diversos tipos de terapia) antes de apelar para a indústria farmacêutica. Mas também li que em casos graves, o medicamento não apenas funciona como é recomendado...e eu vivi isso na pele então só posso concordar! Enfim, cada caso é um caso.

Mas neste post eu queria falar sobre as crianças medicadas...e acima de tudo, da questão do EXCESSO. A quantidade de crianças que  tem sido diagnosticadas nos últimos 5 anos como tendo ADHD (Attention Deficit Hiperactivity Disorder) é cada vez maior, e não apenas nos EUA (no Brasil já se percebe esta tendência, como comentou uma amiga minha que por acaso, é psiquiatra infantil). Fala-se em uma epidemia mundial...e sem dúvida, a indústria farmacêutica nunca faturou tanto como nestes tempos modernos em que quase toda criança acaba recebendo, mais cedo um mais tarde, um rótulo. E com o rótulo vem muitas vezes uma receita médica. E isso cria uma questão delicada.

Na minha época de escola (anos 70) não existia nada disso...mas desde então, admito que a psiquiatra como ciência evoluiu -assim como muita coisa à nossa volta, só quem é cego não vê. E a gente precisa aceitar isso. Na minha opinião de leiga, o problema são os diagnósticos ou melhor dizendo: a dificuldade em estabelecê-los. Eu juro que não gostaria de ser psiquiatra infantil porque a responsabilidade de um rótulo me parece enorme. Na verdade, acredito que em alguns casos o diagnóstico seja mesmo correto (e o uso de medicamentos inevitável) mas não é tão simples assim...

Pra complicar ainda mais, o manual DSM, a famosa "bíblia da psiquiatria", está sempre revendo definições e dizem as más línguas que na próxima edição alguns distúrbios irão simplesmente deixar de existir. Entre eles, a Síndrome de Asperger. Isso afetará uma enorme comunidade de pessoas (crianças e adultos) que, em maior ou menor grau, se "encontraram" neste rótulo. Um exemplo famoso de Asperger é a cientista Temple Grandin. Existe até um apelido carinhoso na mídia e na literatura especializada (não sou psiquiatra mas li muito sobre o assunto): "ASPIE". Então eu me pergunto como essas pessoas irão reformular suas vidas quando a base da sua identidade deixa de existir da noite pro dia, digamos assim...O que você faria?

A mensagem óbvia é que devemos, antes de mais nada, aprender a lidar com rótulos...quem sofre desses distúrbios sabe disso muito bem (e eu vou incluir aqui a depressão). Porque uma pessoa é muito mais do que um rótulo - e não pode nem deveria ser limitada por ele (seja o limite imposto por ela mesma ou por pessoas ao seu redor). Infelizmente muitos esquecem disso...e em caso de crianças, são os próprios pais que encontram a "salvação" nesses rótulos e nos medicamentos que os acompanham (Ritalin, por ex, é o medicamento mais usado no tratamento de ADHD).

Na maioria das vezes, é muito mais fácil lidar com uma criança (devidamente) medicada do que com uma criança hiperativa que não consegue parar no mesmo lugar um minuto, não consegue se concentrar e acaba tendo um redimento escolar pobre, briga com Deus e o mundo porque não sabe controlar sua raiva, etc etc etc. Sim, essas crianças sofrem muito em casa e na escola, e algumas delas realmente tem distúrbios que podem e devem ser tratados com todos os meios disponíveis. Mas NUNCA para facilitar a vida dos pais e sim das próprias crianças! Acho que aí está a chave do problema. Se o medicamento em questão oferece mais vantages do que desvantagens (leia-se efeitos colaterais) e melhora o funcionamento e acima de tudo a qualidade de vida da criança, eu acho OK. Mas medicar só pra "facilitar" a vida dos pais e educadores, aí acho errado.

Felizmente para mim, ainda não existe medicamento para autismo! Eu digo felizmente porque tenho certeza quase absoluta de que se existisse, eu teria de fazer a difícil escolha de decidir medicar ou não o meu filho...pensando bem, provavelmente não medicaria. Isso porque meu filho tem um grau muito leve de autismo (muito diferente das crianças com casos clássicos de autismo que vivem literalmente em outro mundo). Ele é uma criança inteligente, sociável e que não precisa ser medicado para melhorar seu rendimento escolar...bem verdade que a concentração continua sendo um problema e por isso ele ainda está numa escola especial. Sua classe tem 16 alunos em vez dos 30 alunos que as escolas de Amsterdam costumam ter. E eles tem ainda workshops com temas ligados ao desenvolvimento emocional, medos, insegurança, etc (faalangst em holandês é um desses treinamentos). Nesse aspecto, Liam teve a sorte de ter um diagnóstico porque isso lhe deu acesso a uma educacão especial e personalizada que ele não teria de outra forma. E sem dúvida, foi justamente esta educação que permitiu que ele chegasse até onde chegou. Enfim, uma faca de dois gumes!

Para finalizar um assunto polêmico, quero recomendar um ótimo documentário que assisti chamado America's Medicated Kids, do jornalista britânico Louis Theroux. Este documentário está disponível no YouTube a todos interessados - não apenas profissionais como, principalmente, pais de crianças rotuladas como tendo um desses distúrbios (ADHD, autismo, PDD-NOS, bipolar, etc).

9 comentários:

Eliana disse...

Pois é Beth, cada vez aparecem mais rótulos, mas isso se deve simplesmente ao avanço da psiquiatria ou a outro fator ainda desconhecido no ambiente onde estamos inseridos? A que se deve o aumento das crianças com ADHD? Ou seja, porque se encontram cada vez mais autistas, mais "aspargos", mais super hiper ativas, depressivas? É isso que eu me pergunto? Claro, elas podem ter sempre existido...e só agora diagnosticadas. Mas aí é que tá...há uma média para a normalidade, ok, mas eu me questiono sobre as causas disso tudo. Às vezes, eu me pergunto se eu sou "normal" ou se posso ter algum distúrbio. Por um lado, acho importante, já que as pessoas acabam sendo direcionadas para um caminho onde possam desenvolver suas pontencialidades a seu tempo. Porque ser portadora de uma característica e não ser bem direcionado, realmente é muito complicado. Agora acho mesmo que as pessoas precisam acabar com certos "pre conceitos"...afinal cada ser tem suas próprias características e limitações. Bom, só pensamentos meus por aqui...bom domingo.

Maria Valéria disse...

Excelente seu post para reflexão
Já perguntei sobre isso para meu medico, o qual também atende crianças, e ele respondeu que tem crianças de menos sendo medicadas, ou seja, subdiagonosticadas ou sem diagnostico,
Estranhei ele ter respondido assim, mas confio nele como profissional, tanto que comigo ele sempre acerta ( também tenho depressão pra te fazer compranhia,..)... e nao quero outro medico que nao seja ele,
Talvez ele tenha querido dizer, que ao mesmo tempo que existem rótulos desnecessários, existem casos reais de crianças hiperativas que sao passados despercebidos, encarados como ' manha' ' birra' ,quando a criança poderia ter uma qualidade de vida melhor se fosse devidamente tratada,
Excelente tópico, na próxima ver que eu ver meu medico vou perguntar a ele de novo, dai te conto,
Beijao!!!!

Anônimo disse...

Beth, eu nao poderia ter descrito melhor a situacao. Concordo com TUDO o que voce diz, principalmente no que se refere aos rotulos que nossas criancas precisam para poderem se desenvolver, recebendo o auxilio e educacao necessarios para seu desenvolvimento.
Ter recebido o diagnostico PDD-Nos, abriu todo um mundo para meu filho. Por ele ser inteligente o suficiente, aprendeu o significado (um tanto complicado) do disturbio. Ele conseguiu formar um quadro de como seu cerebro funciona, muitas vezes pesquisando, ele mesmo, na internet, exemplos e referencias de outras pessoas com essa variedade de autismo.
Ninguem deveria temer um diagnostico - e o consequente uso ou nao de medicamentos.
Quanto `as criancas com ADHD, acredito que todas deveriam ser devidamente examinadas, a fim de serem - tambem devidamente - medicadas. Deve-se ter muito cuidado ao prescrever-se remedios, pois professores e pais estressados NAO SAO MEDICOS!!!
E ainda assim, mesmo que o diagnostico seja correto, nem toda crianca sera' auxiliada (somente) com remedios. Bom senso em primeiro lugar. Sempre.
Finalmente, gostei muito da colocacao da ELIANA, acima. Todo esse aumento universal de diagnosticos de doencas neurologicas/psiquiatricas, tem uma origem. Sou daquelas que acreditam que a base desses disturbios encontra-se no meio ambiente e nas mutacoes `as quais a Natureza esta' condicionada por excelencia biologica.
Last but not least...you are a hell of a good mother!!!

Fatima

Beth Blue disse...

Fatima,

If am a hell of a good mother, so are you! I think we just learned to choose our battles along the way...e o que não nos mata, nos fortalece né?

Só acho que informação é fundamental em tempos modernos...nem que seja para aprendermos mais sobre as "armas" disponíveis.

Moral da estória: cada caso é um caso. E um rótulo pode ser bom ou ruim, depende de como a família -e principalmente a criança - aprende a lidar com ele. E antes de mais nada, de um diagnóstico bem feito!

Beth Blue disse...

Eliana,

Não sou cientista mas gosto de dar palpites...e acho que você tocou num ponto essencial. Acredito que a quantidade de diagnósticos seja uma combinação de dois (ou mais) fatores: os avanços da ciência e o mundo "doente" em que vivemos.

Eu mesma já cheguei a conclusão que louco mesmo e o mundo que criamos (sim, nós criamos). E depois ainda dizem que eu é que sou louca. Sabe-se lá se todos estes distúrbios não seriam um sintoma de uma doença muito maior da humanidade?

Anônimo disse...

Bethinha,as dúvidas movem a ciência e permitem o progresso;são imprescindíveis para o desenvolvimento de qualquer área de conhecimento.
As edições da CID e do DSM, estão sempre sofrendo alterações, que ocorrem através de um processo dialético entre pesquisas e a prática dos profissionais envolvidos.
É inquestionável que existem diagnósticos errados e prescrições equivocadas de medicamentos.No entanto, o discurso contra a medicação(muito utilizado na mídia brasileira), me assusta e preocupa.
Quantas crianças moram em cidades mais afastadas e não possuem acesso aos médicos especialistas? Quantas crianças sofreram uma vida inteira por falta de um tratamento adequado ao seu transtorno e quando, finalmente, são diagnosticadas e tratadas, aparece no programa da Ana Maria Braga ou no Jornal Hoje uma infeliz reportagem que trata do excesso de medicalização e seus efeitos colaterais. Pq tais programas nunca trataram da falta de diagnósticos e medicamentos adequados?
Pq não nos preocupamos com as crianças subdiagnosticadas?
Parafraseando Paulo Mattos(Presidente da Associação Brasileira de TDAH), os antibióticos são, muitas vezes,prescritos de modo errado e nem por isso seu uso é abolido,pois curam e salvam vidas quando usados corretamente.
Aproveito para deixar aqui uma carta de esclarecimento à sociedade sobre o TDAH, seu diagnóstico e tratamento.
http://www.tdah.org.br/br/noticias/reportagens/item/359-manifesto-oficial-de-esclarecimento-%C3%A0-sociedade-sobre-o-tdah-seu-diagn%C3%B3stico-e-tratamento.html


Fabiana Menezes

Beth Blue disse...

Fabiana, muito obrigada pelo comentário! E que interessante que justamente duas pessoas que trabalham na área médica comentaram sobre o problema de crianças subdiagnosticadas.

É certamente o outro lado da moeda e muito importante que as pessoas saibam disso. A moda na mídia é, como você mesma disse, "meter pau" nos medicamentos. Mas como eu mesma disse no post (e repito): cada caso é um caso e para algumas crianças o diagnóstico e o medicamento fazem toda a diferença! E o seu exemplo dos antibióticos também é perfeito.

Quanto ao documentário em questão, eu gostei justamente porque ele não sai logo criticando mas tenta entender a situação. E para isso, passa uns dias hospedado na casa de uma família onde o menino tem diagnóstico de ADHD e bipolar...

Anita disse...

Beth, li tudo do seu post e dos comentaristas.
Meus filhos não tem ADHD. Mas eles convieram de perto na pós escola (aliás até antes, na creche) com um par de crianças com ADHD e especilamente um que estava saindo fora do controle.
Eu via o pai chegando à escola muito esgotado, de cabeça baixa. E a mãe um fiapo, até com pouco cabelo ela estava. Depois ela começou a ter muitas espinhas. O garoto era PARA LA de hiper ativo. Falava altíssimo, agudíssimo, se movimentava demais e anos mais tarde passou a bater no meu filho (dava cascudos, enforcava, etc.)
Eu levei um susto quando vi no mural a foto dos pais quando tiveram esse garoto. Pareciam bonitos, saudáveis, felizes e isso era apenas uns seis, sete anos atras.
Ouvi dizer que uma noite numa reunião de pais e alunos a mãe desse garoto deu um depoimento muito emotivo contando da experiência de ter um filho com ADHD.
Logo depois eu vi que o garoto mudou da água para o vinho. Morreu o antigo e apareceu uma criança que não esbarrava e pistoeava em meio exército, nao gritava e interagia educadamente com os outros.
A mãe voltou a ficar com a pele boa e o pai voltou a sorrir e levantar a cabeça. Agora o cabelo dela está voltando.
Nesse caso extremo a medicação parece ter mudado (para melhor) a vida de todos.

Agora, se for um ADHD brando vamos por a molecada para pular bastante com aulas de ginática extras, brincar bastante na rua e tomar "visolie" que ajuda na concentração. E talvez um dos pais dedicar mais tempo aos estudos num ambiente calmo com os filhos.

Mas quem sou eu para dar uma opinião no assunto ???

Milena F. disse...

O tema é muito complexo, como muitos que você compartilha conosco. Mesmo sendo psicóloga, acredito que em muitos casos a medicação, em dose acertada, é necessária. Permite à criança de aprender e viver dentro da "norma" (o que muita gente critica), e permite aos pais e professores realizarem uma troca com a criança, o que geralmente seria difícil. A criança com esses transtornos acaba sendo detestada por todos, muitas vezes mesmo os pais, então se um comprimidinho vai ajudar as relações afetivas, um ponto para ele...
Quem quer viver por exemplo perto de um esquizofrênico não medicado? E que vida ele tem sem medicação?
O que acontece é que não existem ainda estudos sérios e satisfatórios sobre os efeitos da medicação a longo termo, e como vc disse existe muita exageração.
Como dizer que todo mundo tem depressão. Sinto muito, mas temos que saber diferenciar depressão de tristeza!!! Quando meu avô faleceu, a médica da minha avó receitou antidepressivo e ela deve estar tomando até hoje, mas sofrer pela morte de um ente querido é normal, faz parte da vida. O namorado da minha colega terminou o namoro de 2 anos, ela chorou horrores e o médico receitou anti-depressivo. Também é normal sofrer com uma relação que chega ao fim. O que acontece com a nossa geração é que é muito fácil ter uma satisfação imediata com uma medicação do que passar por uma situação difícil de luto ou separação (na verdade é necessário elaborar o luto nos dois casos). Minha avó diz que adora tomar o seu medicamento e depois disso, pode acontecer a situação mais difícil do mundo e ela não "sente nada".