sábado, abril 28, 2007

Coisas de Holanda

Ando pensando, lendo jornais, e pensando mais um pouco. E cheguei à conclusão que no dia em que começar a escrever sobre o que realmente acontece aqui na Holanda, não vou parar de escrever nunca mais! Ou vou escrever tanto, mas tanto, que vou acabar criando outro blog: Coisas de Holanda (não deixa de ser uma idéia). É que vivo em um país de contradições cada vez maiores e cuja imagem lá fora pouco ou nada corresponde à realidade daqueles que vivem aqui. Inevitavelmente, têm dias em que eu acordo e penso: hora de desmistificar o país - depois de 13 anos morando aqui, a gente adquire um pouco este direito.

Pra começar, queria deixar bem claro que a Holanda não é o paraíso (embora também não seja o pior lugar do mundo pra se viver). E se alguém por aí tiver descoberto onde o paraíso fica, favor me avisar!!! Moro na Holanda há 13 anos mas já morei nos EUA, Irlanda, Escócia, fui casada com inglês e carrego em mim um pouco de 3 culturas: a brasileira, a inglesa (tempos atrás uma amiga até me apelidou de Dona Inglesa, rsrsrs) e a holandesa. Nem mais, nem menos. Uma posição de certa forma privilegiada, porque tenho o distanciamento necessário para ver os problemas do Brasil (por não estar mais inserida naquela luta diária). E ao mesmo tempo uma posição bastante delicada, porque sempre continuarei sendo estrangeira...aqui sou a brasileira e na minha última visita ao Brasil há 8 anos - nem ouso imaginar como seria agora - meus amigos disseram que eu estava virando européia (e com certeza virei mesmo, em alguns aspectos). Em suma, quem mora fora sabe muito bem do que estou falando.

Só sei dizer que desde que moro na Holanda as coisas mudaram...e muito. E com as mudanças, foram-se grande parte das ilusões que eu tinha quando cheguei por aqui. Claro que não vou cometer o erro de querer comparar os problemas daqui com os do Brasil - teria de ser muito tola (ou burra) para isso! Mas bem ou mal, não deixam de ser problemas, e eles estão cada vez mais fora de controle dos líderes governamentais. Tanto na Holanda, como em países vizinhos como Alemanha e França. E você não precisa ser muito inteligente pra ver que um dia a bomba explode...não, não estou falando do terrorismo (assunto número 1 nos EUA) e sim do maior problema que a Comunidade Européia é obrigada a enfrentar todos os dias em suas cidades. Estou falando da questão da imigração, que já rendeu (e ainda irá render) inúmeros livros, teses e filmes (entre eles, Babel).

Um assunto complexo mas, por mais irônico que possa parecer, quem começou essa estória foram os próprios europeus, que não pensaram duas vezes ao importar mão-de-obra barata (e analfabeta) da Turquia e do Marrocos nos anos 60 e 70. Esses imigrantes (chamados de gastarbeiders aqui na Holanda) foram fundamentais na reconstrução dos países após a Segunda Guerra Mundial e mais tarde, na indústria pesada. Mas a idéia original (santa ingenuidade) do governo holandês (francês, alemão) era que retornassem a seus países para continuar vivendo suas vidas miseráveis...Lêdo engano: três gerações e mais de 40 anos depois, a Europa ainda está lidando com as consequências dessa escolha. A cada dia, em cada centro urbano.

Uma das consequências imediatas é o aumento da xenofobia (principalmente depois de 9-11, needless to say). A Holanda, que era um dos países com leis de imigração mais liberais na Europa hoje tem algumas das legislações mais rígidas. E um partido de extrema-direita que não fica devendo nada a partidos como o Front Nationale (França) e o Vlaams Belang, antigo Vlaams Blok (Bélgica). Um dos primores dessa nova legislação é que, quem quiser vir morar aqui deverá antes passar em um exame da língua holandesa no seu país de origem. Ou seja, nada de chegar aqui sem falar holandês (e olha que a língua não é das mais fáceis).

Mas o ser humano é assim e no final das contas, alguém tem de levar a culpa pelos problemas socioeconômicos do país. E a história mostrou várias vezes (basta lembrar do Holocausto) que o bode expiatório sempre foi e continuará sendo o mais fraco - neste caso, os imigrantes em particular e os estrangeiros em geral. Mas eu continuo o assunto em outro post porque só de pensar fiquei cansada! Aguardem cenas dos próximos capítulos...

5 comentários:

Eu não sei, você sabe? disse...

vou esperar, está ficando interessante!
beijo

Anônimo disse...

Oi Beth,
Pois é, a gente bem sabe, paraíso na Terra não existe, e nenhum país é perfeito, nem a Holanda, nem o Brasil, nem lugar algum.
Sabe que uma coisa que me irrita muito é a arrogância dos holandeses, de achar que a Holanda é um paraíso e que nós temos que agradecer a Deus e beijar o chão diariamente por fazer parte da "samenleving".
Mas também me irritam muito os brasileiros que vivem naquela do "Brasil, paraíso tropical", que teimam em achar que o "Deus é brasileiro" e etc. Ah, como essa gente me cansa, de todos os lados.
Eu, que sempre fui um estrangeiro, até mesmo na minha cidade natal... já me acostumei. Aliás, nem precisei me acostumar, sempre foi assim, sempre fui um estrangeiro.
Uma vez a minha irmã me perguntou por quê eu "teimava"(palavra dela) em ficar morando na Europa, se a minha vida no Brasil seria econômicamente muito melhor, onde eu tenho mais oportunidades, melhores contatos, etc (felizmente, ou infelizmente, eu não estou na Europa por motivos econômicos). A minha resposta: Eu prefiro viver na Europa porque já que eu tenho que sofrer preconceito mesmo, eu prefiro sofrer preconceito por algo que eu escolhi do que por algo que eu não escolhi. Porque se na Holanda eu sofro preconceito por ser estrangeiro (aqui na Bélgica ainda não deu pra sentir), no Brasil eu sofro preconceito por ser gay. Acontece que ser estrangeiro é uma opção minha, eu estou aqui por que quero. Ao passo que ser gay, não é uma questão de opção. Então como gay que sou, acabo aprendendo a engolir a xenofobia a seco... no final, dói menos que a mentalidade anos 50 do Brasil.
Beijo, Antonio

Antonio Fontelles disse...

Aliás este teu texto me inspirou, viu? Acabei aderindo à moda blog... pode ir lá conferir se quiser... meus textos enormes, como sempre... eu, verborrágico????
beijo, Antonio

Bebete Indarte disse...

É pra mim não existe paraíso DE FORA coisa nenhuma.
O paraíso e o inferno estão dentro dos seres humanos.
E eu acho que nós somos afortunados, podemos de um jeito ou outro ter o livre arbítrio para escolher morar aqui ou no Brasil.
Os exiliados políticos, ou de países muito pobres, nem essa escolha têm.
O que eu realmente não gosto na Holanda é o clima, essa chuva e vento, pra mim que não tenho carro e carta, é osso difícil de roer.
No frio seco até vai.
Mas tem muito holandês legal por ai, difícil é FAZER AMIZADE, mas quando se faz, é para sempre.
Um povo FIEL, e nada fofoqueiro.
É questão sempre de colocar na balança. Mas a imagem que o brasileiro tem da Europa é completamente deturpada, é que de férias tudo é sempre bom.
Até de férias no Brasil, tomando uma água de côco, caldo de cana, pastel de feira.

Rita disse...

Boa noite , achei o cometàrio desta Babete ridiculo!! bom os Holandeses são horrivèis !! sem graça e nada de amizade nèm de dividir nada, eles exploram os estrngeiros sim!! Babete minha querida và estudar història!! porque realmente aquele paste maravilhosa là da santa terrinha não te fez bem!! fica aqui lekker a comer frikandel special todos os dias!! São tão hipòcritas e se contradizem, sempre falam mal dos alemãs,mais do outro lado cantam o hino nacional holandes e dizem que teem sangue alemão!! Me assusta o nìvel de alguns!! beijos

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Coisas de Holanda

Ando pensando, lendo jornais, e pensando mais um pouco. E cheguei à conclusão que no dia em que começar a escrever sobre o que realmente acontece aqui na Holanda, não vou parar de escrever nunca mais! Ou vou escrever tanto, mas tanto, que vou acabar criando outro blog: Coisas de Holanda (não deixa de ser uma idéia). É que vivo em um país de contradições cada vez maiores e cuja imagem lá fora pouco ou nada corresponde à realidade daqueles que vivem aqui. Inevitavelmente, têm dias em que eu acordo e penso: hora de desmistificar o país - depois de 13 anos morando aqui, a gente adquire um pouco este direito.

Pra começar, queria deixar bem claro que a Holanda não é o paraíso (embora também não seja o pior lugar do mundo pra se viver). E se alguém por aí tiver descoberto onde o paraíso fica, favor me avisar!!! Moro na Holanda há 13 anos mas já morei nos EUA, Irlanda, Escócia, fui casada com inglês e carrego em mim um pouco de 3 culturas: a brasileira, a inglesa (tempos atrás uma amiga até me apelidou de Dona Inglesa, rsrsrs) e a holandesa. Nem mais, nem menos. Uma posição de certa forma privilegiada, porque tenho o distanciamento necessário para ver os problemas do Brasil (por não estar mais inserida naquela luta diária). E ao mesmo tempo uma posição bastante delicada, porque sempre continuarei sendo estrangeira...aqui sou a brasileira e na minha última visita ao Brasil há 8 anos - nem ouso imaginar como seria agora - meus amigos disseram que eu estava virando européia (e com certeza virei mesmo, em alguns aspectos). Em suma, quem mora fora sabe muito bem do que estou falando.

Só sei dizer que desde que moro na Holanda as coisas mudaram...e muito. E com as mudanças, foram-se grande parte das ilusões que eu tinha quando cheguei por aqui. Claro que não vou cometer o erro de querer comparar os problemas daqui com os do Brasil - teria de ser muito tola (ou burra) para isso! Mas bem ou mal, não deixam de ser problemas, e eles estão cada vez mais fora de controle dos líderes governamentais. Tanto na Holanda, como em países vizinhos como Alemanha e França. E você não precisa ser muito inteligente pra ver que um dia a bomba explode...não, não estou falando do terrorismo (assunto número 1 nos EUA) e sim do maior problema que a Comunidade Européia é obrigada a enfrentar todos os dias em suas cidades. Estou falando da questão da imigração, que já rendeu (e ainda irá render) inúmeros livros, teses e filmes (entre eles, Babel).

Um assunto complexo mas, por mais irônico que possa parecer, quem começou essa estória foram os próprios europeus, que não pensaram duas vezes ao importar mão-de-obra barata (e analfabeta) da Turquia e do Marrocos nos anos 60 e 70. Esses imigrantes (chamados de gastarbeiders aqui na Holanda) foram fundamentais na reconstrução dos países após a Segunda Guerra Mundial e mais tarde, na indústria pesada. Mas a idéia original (santa ingenuidade) do governo holandês (francês, alemão) era que retornassem a seus países para continuar vivendo suas vidas miseráveis...Lêdo engano: três gerações e mais de 40 anos depois, a Europa ainda está lidando com as consequências dessa escolha. A cada dia, em cada centro urbano.

Uma das consequências imediatas é o aumento da xenofobia (principalmente depois de 9-11, needless to say). A Holanda, que era um dos países com leis de imigração mais liberais na Europa hoje tem algumas das legislações mais rígidas. E um partido de extrema-direita que não fica devendo nada a partidos como o Front Nationale (França) e o Vlaams Belang, antigo Vlaams Blok (Bélgica). Um dos primores dessa nova legislação é que, quem quiser vir morar aqui deverá antes passar em um exame da língua holandesa no seu país de origem. Ou seja, nada de chegar aqui sem falar holandês (e olha que a língua não é das mais fáceis).

Mas o ser humano é assim e no final das contas, alguém tem de levar a culpa pelos problemas socioeconômicos do país. E a história mostrou várias vezes (basta lembrar do Holocausto) que o bode expiatório sempre foi e continuará sendo o mais fraco - neste caso, os imigrantes em particular e os estrangeiros em geral. Mas eu continuo o assunto em outro post porque só de pensar fiquei cansada! Aguardem cenas dos próximos capítulos...

5 comentários:

Eu não sei, você sabe? disse...

vou esperar, está ficando interessante!
beijo

Anônimo disse...

Oi Beth,
Pois é, a gente bem sabe, paraíso na Terra não existe, e nenhum país é perfeito, nem a Holanda, nem o Brasil, nem lugar algum.
Sabe que uma coisa que me irrita muito é a arrogância dos holandeses, de achar que a Holanda é um paraíso e que nós temos que agradecer a Deus e beijar o chão diariamente por fazer parte da "samenleving".
Mas também me irritam muito os brasileiros que vivem naquela do "Brasil, paraíso tropical", que teimam em achar que o "Deus é brasileiro" e etc. Ah, como essa gente me cansa, de todos os lados.
Eu, que sempre fui um estrangeiro, até mesmo na minha cidade natal... já me acostumei. Aliás, nem precisei me acostumar, sempre foi assim, sempre fui um estrangeiro.
Uma vez a minha irmã me perguntou por quê eu "teimava"(palavra dela) em ficar morando na Europa, se a minha vida no Brasil seria econômicamente muito melhor, onde eu tenho mais oportunidades, melhores contatos, etc (felizmente, ou infelizmente, eu não estou na Europa por motivos econômicos). A minha resposta: Eu prefiro viver na Europa porque já que eu tenho que sofrer preconceito mesmo, eu prefiro sofrer preconceito por algo que eu escolhi do que por algo que eu não escolhi. Porque se na Holanda eu sofro preconceito por ser estrangeiro (aqui na Bélgica ainda não deu pra sentir), no Brasil eu sofro preconceito por ser gay. Acontece que ser estrangeiro é uma opção minha, eu estou aqui por que quero. Ao passo que ser gay, não é uma questão de opção. Então como gay que sou, acabo aprendendo a engolir a xenofobia a seco... no final, dói menos que a mentalidade anos 50 do Brasil.
Beijo, Antonio

Antonio Fontelles disse...

Aliás este teu texto me inspirou, viu? Acabei aderindo à moda blog... pode ir lá conferir se quiser... meus textos enormes, como sempre... eu, verborrágico????
beijo, Antonio

Bebete Indarte disse...

É pra mim não existe paraíso DE FORA coisa nenhuma.
O paraíso e o inferno estão dentro dos seres humanos.
E eu acho que nós somos afortunados, podemos de um jeito ou outro ter o livre arbítrio para escolher morar aqui ou no Brasil.
Os exiliados políticos, ou de países muito pobres, nem essa escolha têm.
O que eu realmente não gosto na Holanda é o clima, essa chuva e vento, pra mim que não tenho carro e carta, é osso difícil de roer.
No frio seco até vai.
Mas tem muito holandês legal por ai, difícil é FAZER AMIZADE, mas quando se faz, é para sempre.
Um povo FIEL, e nada fofoqueiro.
É questão sempre de colocar na balança. Mas a imagem que o brasileiro tem da Europa é completamente deturpada, é que de férias tudo é sempre bom.
Até de férias no Brasil, tomando uma água de côco, caldo de cana, pastel de feira.

Rita disse...

Boa noite , achei o cometàrio desta Babete ridiculo!! bom os Holandeses são horrivèis !! sem graça e nada de amizade nèm de dividir nada, eles exploram os estrngeiros sim!! Babete minha querida và estudar història!! porque realmente aquele paste maravilhosa là da santa terrinha não te fez bem!! fica aqui lekker a comer frikandel special todos os dias!! São tão hipòcritas e se contradizem, sempre falam mal dos alemãs,mais do outro lado cantam o hino nacional holandes e dizem que teem sangue alemão!! Me assusta o nìvel de alguns!! beijos