quinta-feira, maio 24, 2007

Um estranho no ninho

Meu amigo Antônio - que por incrível que pareça, se tornou ainda mais íntimo com essa estória de blogs - escreveu um texto fantástico sobre a questão do estrangeiro. Não o do Camus, veja bem, embora este também seja digno de nota - e como!

Ler o texto dele me fez refletir novamente sobre a minha (eterna) condição de estrangeira, que é muito mais do que uma mera questão geográfica e de fronteiras delimitadas em um mapa. O que eu quero dizer é que sempre fui estrangeira, à minha maneira (como o Antônio tão bem definiu no texto dele). Nasci em Porto Alegre mas fui pro Rio de Janeiro com 5 anos de idade. No Rio cresci, estudei, me formei na faculdade...mas nunca cheguei a me sentir carioca da gema (simplesmente não estava no meu sangue, que me desculpem os cariocas). Nos primeiros anos de escola, eu era a menina gaúcha...o tempo foi passando, eu deixei de ser a gaúcha pra me tornar simplesmente eu mesma. Prestes a completar 28 anos (olha aí o famoso ciclo de Saturno), arrumei as malas, cruzei os mares e fui trabalhar em Dublin. Lá eu era a tradutora brasileira, embora não andasse com os outros brasileiros e sim com um alemão gay (que o Antônio conheceu, coisas do destino) e um holandês (o fantasma do post anterior, hehehe).

Nos primeiros anos de Holanda, foi a mesma coisa...eu e Jeff tínhamos um círculo de amigos internacional (depois do divórcio, sumiram todos, muitos também se separaram e alguns se mudaram para outros países). Mas nos últimos 5 anos eu diria que meu círculo de amizades tem se tornado cada vez mais verde e amarelo. Mas não se iludam: a maioria desses brasileiros é diferente como eu e está longe de se encaixar no estereótipo de brasileiro no exterior...Pra início de conversa, a maioria não gosta de samba nem de futebol (a não ser na Copa do Mundo, quando a comunidade brasileira no exterior enlouquece de vez, fiquem avisados)...Alguns são cidadãos do mundo, como eu (pra esses eu não preciso ficar me explicando, o que é um grande alívio).

Mas isso tudo é só a ponta do iceberg, obviamente...porque eu sempre me senti estrangeira no mundo. Nunca aprendi a jogar os jogos que as pessoas tanto prezam, sempre me recusei a me enquadrar em classificações e rótulos predefinidos. E nas poucas vezes que tentei me enquadrar, as consequências foram desastrosas. Meus sonhos não eram os mesmos das pessoas à minha volta, muito menos meus planos para o futuro. Sempre fui gauche na vida. E no final das contas, prefiro a liberdade de ser eu mesma. Nem gaúcha nem carioca, nem brasileira nem holandesa - e ao mesmo tempo, um pouco de tudo isso!

4 comentários:

Arnild disse...

Mas Beth...
Chega uma hora que esta rejeição ao samba e ao futebol revela-se coisa de quem ainda não está realmente esclarecido(desculpe, mas ultrapassar esta fase é intelectualmente fundamental). O samba e o futebol não precisam da anuência de ninguém; nem alguém se torna destacado por achá-los, digamos assim, indignos. Concordo que é possível preferir outros ritmos, mas acho engraçado que brasileiros se distanciem de suas raízes apelando para este tipo de limitação. É o cúmulo da "pataxozice", como diria uma amiga minha, conterrânea sua "de nascimento".
A gaúcha bem-humorada cunhou a expressão para designar brasileiros no exterior que juram que são qualquer coisa menos "dilá", mas que na hora do "vamuvê" deixam rastros verde-amarelo fosforecente:-))
Particularmente, dentro do contexto a que pertencem, acho os dois maravilhosos. Já o contrário, me remete àquela ideologia dos brancos de outrora, tão presente em certos comportamentos nacionais que podem até parecer charmosos, mas são mesmo é tabajara... Que morram as sinhazinhas e os senhores de engenho em cada um de nós!
"É melhor ser alegre que ser triste", já dizia o poeta. Um cidadão do mundo faz primeiro a paz com sua aldeia:-))
Beijos,
Arnild

Beth Blue disse...

Ô sinhá, não era bem isso que eu queria dizer...Não estou apelando nem negando minhas raízes não...eu estava falando era de um outro nível de estranhamento, digamos assim (difícil colocar essas coisas em palavras sem parecer pretencioso). é que sempre fui meio estranha, só isso. nada contra nosso Samba, mas sempre preferi a Bossa Nova - e o Caetano Veloso!

PS. verde-amarelo fosforecente foi ótimo, hehehe :-)

Arnild disse...

Hihihi!
Saudades de você no orkut:-)
Eu não escrevi para você, não. Quando li o texto, lembrei de milhares de pessoas que pensam assim. You know what I mean, hehehe.
Lá no "Programa do Ratinho" virtual tá cheio de gente fazendo essa média:-) Tou esperando a preguiça passar para recomeçar o blog. Já estou viciada neste seu...
Domingo tem?
Beijos

Antonio Fontelles disse...

Gente, olha eu aqui de novo!
Mas tem uma coisa que você escreveu no seu texto que poderia bem resumir o meu blog inteiro:

"Nunca aprendi a jogar os jogos que as pessoas tanto prezam, sempre me recusei a me enquadrar em classificações e rótulos predefinidos. E nas poucas vezes que tentei me enquadrar, as consequências foram desastrosas. Meus sonhos não eram os mesmos das pessoas à minha volta, muito menos meus planos para o futuro."

É exatamente isso, e nada mais.

Quanto à questão do "samba e futebol"(que eu nem tinha comentado...): no meu caso, coincidentemente ou não, eu devo admitir, não sou muito chegado a samba nem a futebol. Será que estou "negando as minhas raízes"? Mas peraí, na minha casa se ouvia mpb, bossa nova, e jazz, muito jazz. Então se eu estivesse preocupado em negar as minhas raízes, era do jazz que eu deveria me afastar, não? O samba nunca fez parte da minha vida. Acho bastante limitada a idéia de que todo brasileiro tem as suas raízes no samba e no futebol. Mas uma vez, um grande rótulo.

Ah, o futebol. Olha, essa é fácil - não gosto de futebol simplesmente porque sou gay. Prefiro outro tipo de esportes coletivos, he he he... Tá bom assim? :-)

Beijo, A.

Tecnologia do Blogger.

Um estranho no ninho

Meu amigo Antônio - que por incrível que pareça, se tornou ainda mais íntimo com essa estória de blogs - escreveu um texto fantástico sobre a questão do estrangeiro. Não o do Camus, veja bem, embora este também seja digno de nota - e como!

Ler o texto dele me fez refletir novamente sobre a minha (eterna) condição de estrangeira, que é muito mais do que uma mera questão geográfica e de fronteiras delimitadas em um mapa. O que eu quero dizer é que sempre fui estrangeira, à minha maneira (como o Antônio tão bem definiu no texto dele). Nasci em Porto Alegre mas fui pro Rio de Janeiro com 5 anos de idade. No Rio cresci, estudei, me formei na faculdade...mas nunca cheguei a me sentir carioca da gema (simplesmente não estava no meu sangue, que me desculpem os cariocas). Nos primeiros anos de escola, eu era a menina gaúcha...o tempo foi passando, eu deixei de ser a gaúcha pra me tornar simplesmente eu mesma. Prestes a completar 28 anos (olha aí o famoso ciclo de Saturno), arrumei as malas, cruzei os mares e fui trabalhar em Dublin. Lá eu era a tradutora brasileira, embora não andasse com os outros brasileiros e sim com um alemão gay (que o Antônio conheceu, coisas do destino) e um holandês (o fantasma do post anterior, hehehe).

Nos primeiros anos de Holanda, foi a mesma coisa...eu e Jeff tínhamos um círculo de amigos internacional (depois do divórcio, sumiram todos, muitos também se separaram e alguns se mudaram para outros países). Mas nos últimos 5 anos eu diria que meu círculo de amizades tem se tornado cada vez mais verde e amarelo. Mas não se iludam: a maioria desses brasileiros é diferente como eu e está longe de se encaixar no estereótipo de brasileiro no exterior...Pra início de conversa, a maioria não gosta de samba nem de futebol (a não ser na Copa do Mundo, quando a comunidade brasileira no exterior enlouquece de vez, fiquem avisados)...Alguns são cidadãos do mundo, como eu (pra esses eu não preciso ficar me explicando, o que é um grande alívio).

Mas isso tudo é só a ponta do iceberg, obviamente...porque eu sempre me senti estrangeira no mundo. Nunca aprendi a jogar os jogos que as pessoas tanto prezam, sempre me recusei a me enquadrar em classificações e rótulos predefinidos. E nas poucas vezes que tentei me enquadrar, as consequências foram desastrosas. Meus sonhos não eram os mesmos das pessoas à minha volta, muito menos meus planos para o futuro. Sempre fui gauche na vida. E no final das contas, prefiro a liberdade de ser eu mesma. Nem gaúcha nem carioca, nem brasileira nem holandesa - e ao mesmo tempo, um pouco de tudo isso!

4 comentários:

Arnild disse...

Mas Beth...
Chega uma hora que esta rejeição ao samba e ao futebol revela-se coisa de quem ainda não está realmente esclarecido(desculpe, mas ultrapassar esta fase é intelectualmente fundamental). O samba e o futebol não precisam da anuência de ninguém; nem alguém se torna destacado por achá-los, digamos assim, indignos. Concordo que é possível preferir outros ritmos, mas acho engraçado que brasileiros se distanciem de suas raízes apelando para este tipo de limitação. É o cúmulo da "pataxozice", como diria uma amiga minha, conterrânea sua "de nascimento".
A gaúcha bem-humorada cunhou a expressão para designar brasileiros no exterior que juram que são qualquer coisa menos "dilá", mas que na hora do "vamuvê" deixam rastros verde-amarelo fosforecente:-))
Particularmente, dentro do contexto a que pertencem, acho os dois maravilhosos. Já o contrário, me remete àquela ideologia dos brancos de outrora, tão presente em certos comportamentos nacionais que podem até parecer charmosos, mas são mesmo é tabajara... Que morram as sinhazinhas e os senhores de engenho em cada um de nós!
"É melhor ser alegre que ser triste", já dizia o poeta. Um cidadão do mundo faz primeiro a paz com sua aldeia:-))
Beijos,
Arnild

Beth Blue disse...

Ô sinhá, não era bem isso que eu queria dizer...Não estou apelando nem negando minhas raízes não...eu estava falando era de um outro nível de estranhamento, digamos assim (difícil colocar essas coisas em palavras sem parecer pretencioso). é que sempre fui meio estranha, só isso. nada contra nosso Samba, mas sempre preferi a Bossa Nova - e o Caetano Veloso!

PS. verde-amarelo fosforecente foi ótimo, hehehe :-)

Arnild disse...

Hihihi!
Saudades de você no orkut:-)
Eu não escrevi para você, não. Quando li o texto, lembrei de milhares de pessoas que pensam assim. You know what I mean, hehehe.
Lá no "Programa do Ratinho" virtual tá cheio de gente fazendo essa média:-) Tou esperando a preguiça passar para recomeçar o blog. Já estou viciada neste seu...
Domingo tem?
Beijos

Antonio Fontelles disse...

Gente, olha eu aqui de novo!
Mas tem uma coisa que você escreveu no seu texto que poderia bem resumir o meu blog inteiro:

"Nunca aprendi a jogar os jogos que as pessoas tanto prezam, sempre me recusei a me enquadrar em classificações e rótulos predefinidos. E nas poucas vezes que tentei me enquadrar, as consequências foram desastrosas. Meus sonhos não eram os mesmos das pessoas à minha volta, muito menos meus planos para o futuro."

É exatamente isso, e nada mais.

Quanto à questão do "samba e futebol"(que eu nem tinha comentado...): no meu caso, coincidentemente ou não, eu devo admitir, não sou muito chegado a samba nem a futebol. Será que estou "negando as minhas raízes"? Mas peraí, na minha casa se ouvia mpb, bossa nova, e jazz, muito jazz. Então se eu estivesse preocupado em negar as minhas raízes, era do jazz que eu deveria me afastar, não? O samba nunca fez parte da minha vida. Acho bastante limitada a idéia de que todo brasileiro tem as suas raízes no samba e no futebol. Mas uma vez, um grande rótulo.

Ah, o futebol. Olha, essa é fácil - não gosto de futebol simplesmente porque sou gay. Prefiro outro tipo de esportes coletivos, he he he... Tá bom assim? :-)

Beijo, A.